Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Pode ser que falar que os filmes da Marvel Studios repetem a mesma fórmula seja tão redundante quanto a própria fórmula seguida pelos filmes que integram o MCU. E, ora, se o padrão humor mais dinamismo mais ação em profusão vem funcionando e originando produções cada vez mais bem sucedidas artística e comercialmente, por que fazer de outro modo? Não tem aquele chavão popular “em time que está ganhando não se mexe?” E, para o bem ou para o mal, a Marvel Studios criou uma forte identidade narrativa e visual. É mais do que coerente seus filmes respeitarem uma fórmula quando todos fazem parte de um mesmo universo. O estilo não pode ser, assim, tão distinto de um longa para o outro. Ainda em sua defesa, podemos acrescentar que, em sua época de ouro nos quadrinhos (sua mídia de origem) as histórias também seguiam rigorosamente um mesmo padrão e estilo.

Homem-Aranha: De Volta Ao Lar (Spider-Man: Homecoming) é um título que não poderia ser mais adequado. Além de transmitir a ideia de aventura para toda a família, representa a festa de boas vindas do herói à Marvel Studios.

Após ser descoberto e recrutado pelo Homem de Ferro para participar da batalha no aeroporto de Capitão América: Guerra Civil – inclusive, se vangloriando por ter arrancado o escudo de Steve Rogers – Peter Parker passa maior parte da trama tentando provar o seu valor para Tony Stark de forma a integrar definitivamente o time dos Vingadores. Neste novo filme, ele é um garoto ainda tentando dominar seus poderes e se encontrar como herói. É um adolescente por vezes imaturo, ainda em processo de compreensão do real significado da palavra responsabilidade e que sofre todos os dramas  e dilemas inerentes a essa fase da vida. Ecos e lampejos de John Hughes podem ser ouvidos e vistos aqui e ali durante a projeção. Não à toa, há uma sequência que não apenas emula uma passagem de Curtindo A Vida Adoidado, como a cena original também é exibida em uma tela de TV. E essa não é a única referência ao clássico de Hughes. Se você permaneceu na sala de cinema até depois de os créditos terminarem, sabe do que estou falando 😉

Homem-Aranha: De Volta ao Lar é o típico filme que você assiste com um sorriso nos lábios durante toda a projeção. A produção devolve o senso de diversão que faltava aos longas anteriores do aracnídeo, enfatizando o humor que é um traço que sempre acompanhou o personagem nas histórias em quadrinhos. Parker adorava fazer uma piadinha enquanto lutava com seus arqui-inimigos. Algumas tiradas cômicas são excelentes, como o assalto ao banco executado por delinquentes portando máscaras dos Vingadores ou quando o melhor amigo de Peter descobre que ele é o “Homem-Aranha do youtube” e faz uma série de perguntas embaraçosas.

O roteiro acerta, principalmente, ao não mostrar a transformação de Parker em Homem Aranha, afinal assistimos repetidas vezes Peter sendo picado por uma aranha radioativa e sentindo culpa pela morte do tio Ben  – nos filmes de Sam Raimi e Marc Webb, respectivamente – e isso ainda está muito vivo na memória dos fãs. Fora que sua origem já foi mencionada em Guerra Civil, na conversa entre Parker e Stark. Portanto, o longa opta por focar em seu início de carreira como super-herói, seus erros e acertos, e na humanidade do personagem; na trajetória do garoto que frequenta o colegial até se tornar o herói emblema da Marvel. Além de atualizar a trama do Aranha de maneira eficiente e natural.

E o cast não poderia ser melhor nesse sentido. Tom Holland personifica bem o Amigão da Vizinhança. Sendo convincente na pele de um garoto comum e desajeitado – ainda que bastante inteligente – que, de maneira acidental, acaba se transformando em super-herói. É delicioso e divertido vê-lo tentando conciliar os compromissos e responsabilidades que a nova identidade misteriosa acarreta com sua vida modesta de estudante, repleta de conflitos pessoais. Ajuda o fato de Holland ter saído recentemente da adolescência.

A produção segue aliando o humor e o tom familiar a excelentes sequências de ação, tornado a trama dinâmica e seu desenvolvimento bastante enxuto e orgânico. Os movimentos de câmera, a coreografia das lutas e o emprego maduro e preciso dos efeitos visuais resultam em cenas eletrizantes e bem executadas. O Homem-Aranha, ao contrário de seus colegas de estúdio, garante pouco prejuízo à cidade em que vive. Um dos méritos do filme é exatamente não investir tanto em pirotecnia, explosões e pancadaria gratuita. Mesmo quando a ação dá o tom, o foco permanece sendo no indivíduo aprendendo a domar seus dons e concentrar seus poderes. E evitando repetir o erro dos longas de Webb, não se rende ao fator romance, cada vez mais dispensável nos filmes da casa, ainda que Parker seja um garoto apaixonado pela amiga Liz (Laura Harrier).

O vilão continua sendo o ponto fraco do filme como nas outras incursões do cabeça de teia nas telonas, ainda que tenha uma origem bem justificada – afinal perde seu emprego por culpa do Stark. Isto é, depois que a empresa de salvamento de Adrian Toomes é contratada para limpar a cidade por conta do caos originado pela batalha de Nova York (mostrada no primeiro longa dos Vingadores), o Departamento de Controle de Danos de Stark assume o comando da operação. Enfurecido com o acontecimento, Adrian sugere que, ao invés de devolver a tecnologia Chitauri encontrada durante a limpeza, a equipe deve permanecer com ela, convencendo seus homens a usá-las para criar armas avançadas. Apesar de um início promissor, o Abutre acaba não atingindo todo o seu potencial na trama, o que é uma pena, visto que é bem defendido por Michael Keaton (olha só, o primeiro Batman! Inclusive tem uma referência ao primeiro longa do Homem-Morcego estrelado por ele). Outros vilões dão o ar de sua graça, como Escorpião e Shocker, já estabelecendo o universo de antagonistas do aracnídeo que prometem dar trabalho para o nosso herói em longas futuros.

Se há algum ponto negativo é o fato de ser um tanto deprimente dividir protagonismo com Tony Stark durante várias passagens do longa. Mas enquanto Robert Downey Jr. for a galinha dos ovos de ouro do estúdio, é assim que vai ser. Os demais heróis tem apenas de aceitar e se conformar se quiserem continuar a fazer parte do MCU. Mesmo assim, não é algo que prejudica exatamente a trama. E, apesar do carisma, talento e presença de cena de Downey Jr., Tom Holland não chega a ser ofuscado pelo seu brilho, graças às habilidades interpretativas e a boa dinâmica do jovem ator com a câmera.

Já alterar o biótipo de alguns personagens não é algo que realmente incomoda quando sabemos que Raimi também tomou diversas liberdades e licenças poéticas e criou filmes emblemáticos no começo da década passada (uau, como o tempo voou!).

Não é o melhor filme do Aranha, esse mérito ainda pertence a Homem Aranha 2, de 2004, assinado por Raimi. E nem falo em termos de adaptação ou fidelidade ao material original. Mas em termos de cinema mesmo. Já até mencionei o motivo no texto sobre X-Men Apocalipse: naquela época, os filmes eram mais bem-resolvidos em si mesmos, exatamente por não serem pensados em termos de franquia cinematográfica.

Mas isso não quer dizer que Spiderman: Homecoming não possua créditos. Afinal, se Homem Aranha 2 é o melhor filme, este é o segundo melhor longa do Aracnídeo. Entretenimento puro, respeita o cânone e apresenta uma boa dose de fanservice. Além de nos trazer um vislumbre de como seria um filme do Homem-Aranha dirigido por um misto de John Hughes com o Robert Zemeckis dos anos 1980, em seus tempos áureos. Aí está o resultado. E que agradável e delicioso ficou esse resultado!

Andrizy Bento

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s