Mulher-Maravilha

Heroína mundialmente famosa e símbolo de protagonismo feminino, a Princesa Amazona dispensa grandes apresentações. Criada em 1942 pelo Dr. William Moulton Marston, sob o pseudônimo de Charles Moulton, e dividindo os holofotes com os icônicos Batman e Superman nas páginas das histórias em quadrinhos e, posteriormente, na telinha, por meio de desenhos animados e seriados em live-action, Mulher-Maravilha finalmente ganha as telas do cinema com um longa digno de seu título e importância.

Há mais de vinte anos, um projeto de filme solo da personagem está em desenvolvimento nos estúdios Warner, passando pelas mãos de diversos produtores e cineastas. Sob o comando da diretora Patty Jenkins, com roteiro de Allan Heinberg (escrito a partir de argumento desenvolvido pelo próprio em parceria com Zack Snyder e Jason Fuchs) a produção toma lugar como o quarto longa na cronologia do Universo Estendido da DC Comics nos cinemas sendo precedido por Homem de Aço (2013), Batman Vs Superman: A Origem da Justiça (2016) e Esquadrão Suicida (2016). Cercado por inúmeras expectativas, Mulher-Maravilha tinha compromissos perante público e crítica, desempenhando um papel de suma importância na cultura pop atual.

O primeiro deles era mostrar que a parceria DC/Warner era capaz de proporcionar um bom filme aos espectadores após os equívocos cometidos em Batman Vs. Superman. O segundo, mas não menos relevante: atentar para a representatividade feminina em uma cultura majoritariamente dominada por heróis masculinos. Mulher-Maravilha, afinal, sempre teve esse peso de símbolo de luta e resistência feminista desde uma época em que as mulheres, nos quadrinhos, limitavam-se ao papel ingrato de namoradas dos heróis. Na contramão disso, a princesa amazona sempre representou um ideal de força e sabedoria na qual jovens leitoras e espectadoras podem e devem se espelhar.

Mas o grande trunfo de Jenkins, Gal Gadot (atriz que interpreta a heroína) e equipe foi não se deixar levar pelo discurso ideológico e sócio-político que cincundava a produção – pelo peso da responsabilidade de apenas responder a anseios de ativistas e do mercado – e, sim, se preocupar em contar uma boa história nas telas.

Fiel à essência e mitologia estabelecida em sua mídia de origem, Diana foi esculpida no barro pela sua mãe, Rainha Hipólita (Connie Nielsen), que clamou a Zeus que lhe trouxesse à vida. Contra a vontade da mãe, ela é treinada desde pequena por sua tia, General Antíope (Robin Wright, em performance inspirada), para ser uma guerreira imbatível. Ela vive em Themyscira, o lar das guerreiras amazonas, criadas pelos deuses do Olimpo para proteger a humanidade da vilania de Ares, o deus da guerra. A ilha paradisíaca é protegida do restante do mundo, como se existisse em uma dimensão paralela.

O ponto de ruptura se dá quando um piloto da Força Aérea Americana cai fora da costa de Themyscira e é salvo por Diana. A ilha é invadida por marinheiros alemães que entram em confronto com as amazonas causando caos absoluto. Após o trágico desfecho do embate, o piloto, Steve Trevor (Chris Pine), avisa acerca de uma guerra sem precedentes entre as nações que está assolando o mundo. Convencida de que Ares esteja por trás de todo o conflito, Diana parte ao lado do piloto a fim de lutar na guerra que irá acabar com todas as guerras, certa de que esse é o seu destino.

O roteiro é inteligente ao situar sua história no auge da Primeira Guerra Mundial (ao invés de na segunda, como nos quadrinhos), pois os conceitos e ideais retratados acabam por servir bem à narrativa, soando coerente com o discurso da personagem e explanando a necessidade de uma heroína como a Princesa Amazona neste cenário. O longa tem propósito e estofo, diferentemente das incursões anteriores dos heróis da DC em seu Universo Estendido.

Dessa forma, os questionamentos de Diana ao se deparar com a cidade de Londres e, basicamente, com todo um mundo distinto do seu, não só conferem momentos leves, de comicidade à produção, como fazem sentido dentro da proposta do texto e do universo estabelecido. Diana vê graça no fato de as pessoas deixarem que um objeto tão pequeno e aparentemente insignificante como o relógio lhes diga o que e quando devem fazer; questiona os princípios que regem o matrimônio; as ordens tortas de um general; os protocolos e estratégias adotados com tamanha negligência para se lutar na guerra. E, se analisarmos a fundo, a heroína está certa em não ver sentido no comportamento dos humanos comuns.

Tanto o texto quanto a atriz são felizes ao transmitir de maneira plausível e convincente a ingenuidade, o caráter curioso e o pensamento não necessariamente antiquado, mas puro que Diana tem da humanidade, do bem e do mal, sem compreender as camadas que permeiam esse suposto dualismo; afinal um conceito não é exatamente o oposto do outro. E é de uma maneira dolorosa que ela descobre que a humanidade é desumana.

As opções estéticas também se alinham de maneira bem sucedida ao contexto histórico retratado. A reconstituição de época é um achado e a composição cromática, simplesmente notável. As cores frias e o visual retrô do mundo dos homens contrastam com o universo mitológico de cores vivas da ilha paradisíaca em que Diana foi criada. O desenho de produção é eficiente ao transmitir tanto o esplendor e a aura fantástica de Themyscira quanto os horrores da guerra e sua atmosfera caótica em momentos bem pontuados.

Destaque para duas sequências em especial: a batalha entre as guerreiras amazonas contra os marinheiros alemães no primeiro ato do longa; e Diana se convertendo finalmente em Mulher-Maravilha, correndo entre as trincheiras e partindo para o front. Ambas são um espetáculo visual, cuja coreografia das lutas é muito bem valorizada pela direção de fotografia que dá uma dimensão exata dos embates. Até mesmo o slow motion (marca registrada e constantemente banalizada por Snyder) é bem utilizado, contribuindo para que nenhum ângulo seja negligenciado e o espectador tenha acesso a cada movimento das batalhas.

O longa segue em um crescendo dramático apropriado, retratando brilhantemente a evolução da protagonista e sempre tomando decisões acertadas. Até o clímax que, infelizmente, vem a ser uma das poucas falhas de Mulher-Maravilha. É quando a pirotecnia dá o tom e o grande momento do filme – o confronto final entre a heroína e o vilão – ganha uma representação megalômana, conduzida com mão pesada e onde se enxerga contornos inegavelmente Snyderianos. A assinatura de Jenkins é quase apagada durante a sequência, mas retorna em um belo e magistral momento entre Diana e Steve. Contudo, nada que comprometa efetivamente a estrutura do longa.

Aliás, falando de Trevor, ele surge como um interesse romântico para a princesa amazona, sem deixar de ser um personagem bem fundamentado e tridimensional. O aspecto romântico da produção jamais diminui, tampouco dilui a força da heroína, nem condiciona sua trajetória durante o filme.

A Mulher-Maravilha já era um dos maiores (e talvez um dos poucos) acertos de Batman Vs Superman. A cena em que ela surgia para lutar ao lado dos heróis, trajada pela primeira vez com o figurino da princesa guerreira e ainda embalada pelo seu poderoso tema musical, era emocionante e arrebatadora. E seu filme solo é um deleite e alívio para espectadores que ainda nutriam esperanças em relação ao Universo Estendido da DC no cinema. O cânone e a essência foram respeitados, bem como todo o simbolismo inerente à heroína. Sem dúvida, uma das melhores traduções de uma personagem dos quadrinhos para as telas e um dos filmes de origem mais satisfatórios da história.

E só para não perder a piada, Mulher-Maravilha é o filme que Thor gostaria de ser 😉 Mas, acima de tudo, é o filme que a gente quer e o filme que a gente precisa.

 

Andrizy Bento

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