Blacksad

Blacksad 3

“Há um monte de clichês sobre nós, gatos. Um deles é que possuímos nove vidas. A verdade é que eu nunca realmente quis descobrir se isso era verdade ou não”.

Descobri Blacksad em uma lista anticonvencional de melhores graphic novels de todos os tempos. Uma que, sabiamente, não incluía Watchmen,  Sandman ou V de Vingança. Estas estão presentes em todas as listas que elencam o crème de la crème da nona arte e, para falar a verdade, não precisam ser citadas toda vez. Há um universo vasto de graphic novels excelentes e pouco divulgadas que merecem ser descobertas e lidas. E Blacksad, roteirizada por Juan Diaz Canales e ilustrada, pintada e arte-finalizada por Juanjo Guarnido é um desses títulos.

Embora seus criadores sejam naturais da Espanha, o título foi lançado originalmente na França, em novembro de 2000, pela editora Dargaud, responsável pela publicação de quadrinhos franco-belgas. Teve seu primeiro volume intitulado Quelque part entre les ombres, em bom português: Algum Lugar Entre as Sombras. A obra foi traduzida para mais de 20 idiomas e seus criadores receberam diversos prêmios por ela,  incluindo dois Eisner Award – a premiação mais importante da indústria de quadrinhos – em 2013. Antes disso, em 2004, a série já havia recebido outras três indicações.

Aqui no Brasil, Blacksad foi publicada pela Panini Comics em setembro de 2006.

A princípio, confesso que senti um pouco de preconceito. Animais antropomórficos? A primeira coisa que me veio à cabeça foram as animações de Hannah Barbera. Mas essa impressão logo se dissipou assim que me deparei com a primeira página. A arte é realmente fabulosa. O primeiro volume da HQ intitulado Em Algum Lugar Entre as Sombras, traz o gato detetive John Blacksad investigando o assassinato de uma bela atriz com quem já teve um affair no passado. Curioso notar que se a história contasse com personagens humanos, provavelmente seria pra lá de manjada. Afinal, é um mote já saturado das típicas tramas noir. Entretanto, ao utilizar a metáfora do mundo animal a fim de fazer paralelos com a natureza feroz, de violência e criminalidade das megalópoles, a obra acerta em cheio.

Os personagens são rasos e estereotipados, mas funcionam no contexto da série. As espécimes animais retratadas refletem a personalidade de cada um dos personagens, abusando de figuras de linguagem, analogias e representações visuais muito bem sacadas. Alguns dos gracejos e ditados mencionados ao longo da narrativa acerca de gatos possuírem sete vidas, ou mesmo toda aquela coisa típica de detetives com sobretudos (um clichê das histórias policiais e detetivescas) são bastante espirituosos. O diferencial de Blacksad, que evita que ela esbarre em chavões narrativos, é exatamente reinventar o conceito tão saturado  de animais antropomórficos das animações infantis e inseri-los em uma atmosfera noir. Os paralelos entre a vida selvagem e o caos urbano (quem nunca comparou a cidade grande a uma selva?) aliado a arte distinta e proeminente de Guarnido, com um traço rico em detalhes, fazem de Blacksad uma graphic novel soberba.

O preço do livro importado é salgado e é necessário dar sorte para encontrar o título em português lançado pela Panini alguns anos atrás. Mas para os apreciadores e consumidores vorazes de graphic novels, vale a pena procurar por ela.

“Toda esta história me deixou com um gosto ruim na boca. Eu me envolvi em uma atmosfera viciosa feita de ódio, vingança e corrupção. Daquele dia em diante, este seria o meu mundo. Uma selva onde a sobrevivência é do mais apto. Onde as pessoas agem como animais. Eu tinha escolhido andar pelo caminho mais escuro da vida … E eu ainda estou nele.”

Lembrando que Will Eisner era um grande fã da obra. Quer o aval de alguém melhor do que do próprio mestre dos quadrinhos?

Andrizy Bento

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