Z – A Cidade Perdida

Baseado no livro homônimo de não ficção, assinado por David Grann, a história do obstinado explorador britânico Percy Fawcett é levada às telas pela lente sutil e incomparável do cineasta James Gray, ganhando status de clássico instantâneo. Z – A Cidade Perdida é um épico de aventura com ares de blockbuster, um tipo raro de cinema que quase não se vê nos dias atuais.

Durante a primeira metade do século XX, Fawcett viajou ao Brasil com o objetivo de mapear a Amazônia em um trabalho organizado pela Royal Geographical Society. Durante a expedição, descobriu vestígios de uma civilização perdida e avançada que habitou a região da Serra do Roncador no estado do Mato Grosso – uma lendária cidade de ouro em plena selva, a qual o explorador chamou de Z. Sua jornada pelo desconhecido através dos anos ganha um texto notável e uma fotografia deslumbrante, além de um intérprete (Charlie Hunnam) que, surpreendentemente, vai do pragmático ao sonhador, construindo um personagem que calcula seus passos, mas não mede esforços para atingir seu objetivo. Ainda que ridicularizado pelo corpo científico, jamais se despe da fé inabalável de encontrar a mítica cidade de Z. E tudo é transmitido ao espectador de maneira crível.

Um olhar moderno para o passado é a melhor forma de definir o longa de Gray. Contando com a cinematografia exuberante de Darius Khondji – um dos melhores diretores de fotografia em atividade ao lado de Robert Elswit e que já havia colaborado com James Gray em Era Uma Vez em Nova York – a câmera é tão intimista quanto reveladora, alternando close-ups com planos médios e alguns escassos planos abertos, trazendo pouca noção das reais dimensões da floresta amazônica. Mas é exatamente aí que a produção foge do lugar comum, de um tom reverente ou contemplativo. Apesar da composição de imagens primorosas, de um extremo cuidado na construção dos quadros, o longa jamais se rende à perfumaria, preferindo priorizar a beleza natural, o que é louvável.

Outro aspecto que convém mencionar é o jogo de luz e sombras que é sabiamente utilizado. A iluminação natural do sol pode até incomodar os olhos destreinados, mais acostumados (e ludibriados) com a artificialidade tão comum e presente nesta era atual de filtros excessivos. Mas é inegável o fato de que, além de inteligente, confere um tom extremamente belo e genuíno à obra.

A paleta cromática não apresenta muita diversidade, optando por matizes opacos e acinzentados, compondo um mundo de cores esmaecidas, constantemente sombreado, melancolicamente retratado, tal qual a figura do protagonista que precisa superar o fracasso de seus ancestrais e o seu próprio. Em contrapartida, há uma tonalidade dourada que permeia todo o longa, ainda que em meros detalhes do cenário, o que acaba por ressaltar a obstinação, o objetivo e o grande sonho de Fawcett.

Todo o trabalho da direção artística é exemplar. Como de costume, Gray mostra um domínio absoluto da mise em scène, situando de maneira precisa seus atores em cena e valorizando cenários, explorando toda a riqueza dos detalhes. A arquitetura das casas, especialmente das imponentes salas de reuniões, acabam por corroborar um ambiente opressivo, claustrofóbico e carregado ao redor do protagonista e de seus coadjuvantes, contrastando com a natureza, as luzes e cores da Amazônia que trazem uma revigorante sensação de liberdade.

Falando em coadjuvantes, as presenças suntuosas de Sienna Miller, na pele da determinada e independente Nina Fawcett, e Robert Pattinson (impressionante e conquistando cada vez mais seu espaço nas telas) no papel do cabo britânico Henry Costin que acompanha Percy em suas primeiras viagens,  só abrilhantam ainda mais o longa. Isso sem falar em Tom Holland que, com destreza, acerta no tom ao interpretar Jake, o filho mais velho de Percy e Nina.

Não há como não comparar o último frame de Z – A Cidade Perdida com a cena que encerra Era Uma Vez em Nova York (ou A Imigrante), longa de 2013, também assinado pelo diretor. Belas, simples e extremamente significativas, são estas as cenas que ficam na memória ao término das sessões, pois nos dizem muito mais do que qualquer adendo ou epílogo.

Um homem deve tentar alcançar o inatingível, senão de que vale o paraíso?

E esse quote é seguido à risca. Podemos até mesmo dizer que é à imagem e semelhança dele que a história é contada na tela e o longa foi executado. A intenção de James Gray em momento nenhum é tentar encontrar respostas para um questionamento que perdura pelos séculos e, sim, transmitir ao espectador todo o deslumbramento dessa jornada, reproduzindo a busca pela cidade perdida de Z, retratando a trajetória de perseverança do explorador. E o alcança com sucesso em um filme majestoso e tecnicamente irretocável. Uma história que merecia ganhar o grande ecrã e o ganhou pelos olhos de dois mestres – Gray e Khondji – e que deve, sem dúvida, ser conferida e apreciada na telona.

Andrizy Bento

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