13 Reasons Why

Começar este texto recorrendo ao empirismo não era, nem de longe, a minha intenção. Mas à medida que fui assistindo aos episódios de 13 Reasons Why, fazendo minhas anotações de modo a elaborar este artigo e lendo diferentes opiniões sobre a série em redes sociais e sites de entretenimento, percebi que analisá-la sem que o espectador leve em conta as próprias experiências pessoais (no tocante a bullying, assédio, depressão e suicídio) é praticamente impossível. É exatamente o empirismo que molda seu ponto de vista com relação a esses tópicos.

Portanto, gostaria de começar dizendo que conheço muita gente que tem enraizadas duas ideias sobre o suicídio. A primeira de que a pessoa que tira a própria vida é egoísta; não se preocupa com mais ninguém ao seu redor, nem família, nem amigos, somente ela mesma. A segunda, de que o suicida estava apenas se eximindo das responsabilidades por seus problemas e os despejando nas costas dos outros, como se quisesse culpar e punir os demais pelo seu ato e fazê-los conviver com o peso de um suicídio na consciência pelo resto de seus dias.

Duas opiniões simplistas e rasas demais acerca de um assunto tão complexo e delicado. E eu gostaria de dizer que a mais nova produção original da Netflix – baseada no livro homônimo escrito por Jay Asher e adaptada pelo showrunner Brian Yorkey para a televisão – lança luz sobre camadas mais profundas do suicídio que, se não o torna mais compreensível, pelo menos apresenta uma visão densa do assunto, não cabendo o julgamento, mas a complacência e empatia. No entanto, a verdade é que a série, por diversas vezes, apenas parece reforçar aquela segunda ideia mencionada, ao invés de desmitificá-la.

A história acontece em duas linhas temporais distintas. Portanto, compromete-se a narrar os antecedentes do fatídico dia do suicídio de Hannah Baker (Katherine Langford), uma estudante de 17 anos do Liberty High School, mostrando como ela chegou a esse caminho sem volta; e, paralelamente, focar no período posterior a isso, enfatizando o modo como cada um de seus colegas reagiu ao incidente – especialmente Clay Jansen (Dylan Minnette), com quem ela tinha uma ligação mais profunda. Antes de se matar, Hannah gravou em fitas cassetes os 13 motivos que a levaram a esse ato. De forma esquematizada, as fitas foram entregues a colegas seus que representaram um papel determinante em sua decisão de tirar a própria vida. Assim, cada episódio se concentra na relação de Hannah com um desses 13 personagens, aliás, desses 13 porquês.

Clay Jansen é o mais atormentado pelo enredo que as fitas narram. Afinal, era amigo de Hannah e também apaixonado por ela. Além disso, não consegue compreender de imediato o motivo de seu nome estar presente nas fitas. Dominado pela angústia e também pelo temor de descobrir os segredos mais sombrios da amiga, Clay ouve as fitas aos poucos em um velho walkman, refazendo os passos da garota, surpreendendo-se com revelações e declarações contundentes e, por fim, compreendendo seus vínculos com cada um dos colegas mencionados por ela antes de morrer.

Lado A

É particularmente cativante a atmosfera nostálgica que envolve 13 Reasons Why. Desde o fato de a protagonista usar uma mídia antiga e quase obsoleta como fitas cassete para gravar os treze motivos do título até a seleção de músicas que compõem a trilha sonora.  Os contrastes entre a modernidade e um clima vintage e saudosista é um dos charmes da produção. E faz sentido dentro do contexto da série, pois a protagonista, por diversas vezes, parece se sentir vítima da demasiada exposição consequente da geração moderna da qual faz parte – altamente conectada, dependente de smartphones e tablets em tempo integral e acostumada a receber mensagens de maneira instantânea. Toda a tortura psicológica e o assédio físico tem início após uma foto de Hannah (tirada com a câmera do celular de um garoto com quem estava ficando) viralizar ao ser espalhada para todos os seus colegas por meio do whatsapp. O contexto da foto é deturpado imediatamente. E ali começa o pesadelo da personagem.

A trilha, pontuada por canções deprimidas de Joy Division, The Cure e até mesmo um cover surpreendentemente bom de Selena Gomez para Only You, (originalmente gravada pela dupla britânica Yazoo), ajudam a estabelecer o tom exato que a narrativa não apenas pede, como exige. As músicas são certeiras ao refletirem o estado emocional de Clay Jansen e Hannah Baker. Os acordes de The Night We Met de Lord Huron, por exemplo, são suficientes para tornar a cena do baile, memorável.

Para além das qualidades estéticas, é interessante notar como a série retrata a questão dos boatos que se alastram de maneira tão implacável, que histórias triviais acabam ganhando proporções estratosféricas e podem até mesmo destruir a vida de uma pessoa.

Atentar para as singelas diferenças entre o universo das meninas e dos meninos é outro ponto em que a série acerta, especialmente na maneira distinta como cada um dos gêneros zela pela sua reputação. É não só injusto como revoltante ver um estuprador ser glorificado e nem mesmo parecer ter consciência de que o que cometeu foi realmente estupro. Exatamente por conta do passe livre que a sociedade concede ao homem para fazer e falar o que quiser sem nunca sentir o impacto disso em sua honra. Porém, uma garota não pode simplesmente ir a uma festa, com o único intento de se divertir e beber algumas cervejas, sem que vá soar para os outros meninos (e até mesmo meninas, pais e conselheiros escolares) que ela está se oferecendo, sendo fácil.

Não dá para ignorar também a constante culpabilização da vítima. Não só Hannah, como outros personagens têm de ouvir de um conselheiro (que parece ignorar tudo o que acontece no ambiente no qual trabalha, em ordem de adotar uma postura pautada pelo comodismo) se eles não estão dando margem para sofrerem violência nos corredores; se eles não estão provocando os bullies. Eu ouvi muito isso durante minha vida escolar. Na cabeça da diretora de minha antiga escola, a menina que teve sua saia levantada por três meninos, era a culpada por conta de sua vestimenta. Afinal, meninos são só meninos…

A produção também pode servir de alerta para pais que pouco prestam atenção aos seus filhos – não atentos ao fato de que eles podem estar atravessando fases difíceis e problemas que julgam incontornáveis – bem como a inércia e apatia de professores e diretores e a omissão daqueles que se dizem amigos, mas não se esforçam para ajudar. No final da série, quando Clay diz à Skye (Sosie Bacon), uma amiga de quem se afastou previamente, “vamos sair por aquela porta e dar uma volta?” é extremamente significativo, pois, por mais simples que seja, às vezes isso é tudo o que você precisa ouvir.

Lado B

De longe, o maior problema de 13 Reasons Why é exatamente não se esforçar para apontar uma solução ou saída para quem se encontra no limite. Com uma estrutura deficiente e abordagem problemática, faltou responsabilidade na hora de tocar em assuntos tão sensíveis. De fato, o que faltou mesmo foi sutileza.

Hannah é uma personagem utilizada como um espelho para que todo espectador que já passou por uma situação de bullying, assédio, depressão, se projete e sinta empatia por ela. Somos alvos de bullying de diferentes gêneros ao longo da vida, claro. Mas quando a escola passa a ver Hannah como seu principal alvo, parece forçado. Tudo o que a garota faz, torna-se motivo de zombaria, deboche. Na passagem em que ela grita no corredor do colégio “Why me?”, é inevitável que o espectador se faça a mesma pergunta.

Outros personagens também sofrem bullying e violência, mas nenhum nas mesmas proporções e intensidade de Hannah. Ela sofre todo o tipo de chacota possível. Desde ser considerada “fácil” por conta da foto mencionada alguns parágrafos atrás, até uma lista maldosa feita por um suposto amigo em que elenca as melhores e piores partes dos corpos das meninas, passando por questionamentos acerca de sua sexualidade. Mesmo quando a garota busca uma alternativa intimista para se expressar e procurar se sentir mais confortável consigo mesma, como escrever poesia, seus escritos são publicados e acabam sendo alvo de piada da escola. Isto é, qualquer coisa relacionada a Hannah Baker se torna um evento, causa um alvoroço pelos corredores do Liberty High School e além. Tudo o que ela faz dá errado e, assim, a personagem sente como se, constantemente, decepcionasse todos à sua volta e a si mesma.

Engrosso o coro dos detratores ao repetir algo que muito vem sendo dito sobre a série: sim, ela romantiza o suicídio. Romantiza, não no sentido de tornar poético (a associação entre as duas palavras é um equívoco dos grandes), mas no sentido de idealizar, de torná-lo didático, de narrar os pormenores com tanta especificidade até culminar na cena do suicídio propriamente dito. Hannah parece arquitetar seu suicídio como se fosse mais um projeto escolar.

Por vezes, a série deixa aquele gosto amargo e a impressão errada de que Hannah tirou a própria vida com o objetivo de se vingar, de fazer todos se sentirem péssimos pelo modo como a trataram. Ainda que não seja essa a intenção, a execução falha aí e ao proteger, por vezes, o lado dos bullies, procurando justificativas que amenizem suas ações. Percebam: a história dá tanta ênfase a como aqueles que prejudicaram Hannah se sentem oprimidos com as revelações em suas fitas, que o roteiro, involuntariamente, acaba por pintá-los como vítimas do suicídio da colega. Os personagens não tem a mínima espessura, só existem em função do  ato extremo da protagonista.

O mote das fitas e a representação de Clay como justiceiro são artifícios narrativos que se esgotam rapidamente, tornando muitos dos episódios dispensáveis e redundantes. O personagem Tony (Christian Navarro), o amigo vintage que se veste no melhor estilo James Dean, possui um Mustang e adora fitas cassete é superficial demais e uma clara conveniência de roteiro. Ele atua como o guardião das cópias das fitas de Hannah, mas nunca tem um papel bem definido ou esclarecido na trama. Os personagens partem de estereótipos comuns de produções que abordam o microverso das High School americanas e, para completar, as atuações são, em sua maioria, fracas e pouco consistentes.

Desse modo, o problema não está na história, mas nos mecanismos utilizados para contá-la. O que faz de 13 Reasons Why demasiado incisiva, impositiva e tendenciosa, além de redundante.

Drop the mic

Para concluir, gostaria de chamar a atenção para a importância dos alertas de gatilho. Eu mesma, não consegui assistir à cena do suicídio. Ok, eu consigo encarar numa boa outras representações de violência gráfica, mas aquela, especificamente, não. Para mim, tocou em um ponto muito sensível e resgatou memórias traumáticas relacionadas a pessoas do meu convívio que eu não fazia nenhuma questão de recordar. Daí a necessidade dos avisos de gatilhos. Não se trata de frescura como muitos apontam por aí. É questão de responsabilidade e preocupação com o espectador.

Há muitos que conseguem ter aquele distanciamento da obra que estão lendo ou assistindo, analisando como o que realmente são: um produto fictício. Outros, espectadores mais sensíveis e fragilizados, nem sempre conseguem distanciar a ficção da realidade, e alguma representação de violência ou de situações ofensivas na literatura ou no audiovisual são capazes de despertar reminiscências traumáticas com mais intensidade do que deveriam.

O alerta de gatilho está no início dos dois últimos episódios da série e são de suma importância.

Convém salientar que, sim, estou achando exageradas algumas reações e todo o buzz em torno da série e dos gatilhos que ela dispara. Já vi várias outras obras com muito mais potencial de acionarem gatilhos não terem a mesma repercussão. Nesse caso em questão, fica claro que todo o alvoroço se dá porque a produção é o hit do momento e hoje tudo precisa ser extremamente problematizado. É necessário ter cuidado ao recomendar a série a alguém? Sim, mas o estardalhaço é descomedido. A verdade é que destacaram demais a importância da obra, ao invés de atentarem para as deficiências e verdadeiras crateras presentes no roteiro. Isso sem falar no caráter maniqueísta da trama.

★★★

Andrizy Bento

 

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