Agents​ ​of​ ​SHIELD​ ​4×15​ ​-​ ​Self​ ​Control

A menos que você tenha sido tragado por um monolito e arremessado para Maveth nos últimos anos, deve ter ouvido falar na série estrelada por Phillip Coulson (Clark Gregg), o fanboy da Marvel que costumava colecionar figurinhas do Capitão América (Chris Evans) e morreu vítima de Loki (Tom Hiddleston) no primeiro filme dos Vingadores, lançado em 2012. Sua morte serviu para impulsionar a formação do supergrupo de heróis e o restante da história é bem conhecido. No cinema e na televisão.

Até agora, os Vingadores já estrelaram vários longas de sucesso (A Era de Ultron e Capitão América: Guerra Civil são alguns deles). Coulson, por sua vez, ressuscitou e, desde 2013, estrela Agents of SHIELD. Dispensável me prolongar em uma introdução sobre a série de modo a contextualizar este post. Para situar possíveis leitores perdidos que não fazem muita ideia acerca do seriado em questão, aí vão alguns dos meus artigos centrados em AoS e publicados por aqui:

Primeiras e decepcionantes impressões do seriado da Marvel em parceria com a ABC e a Mutant Enemy Productions

Dez razões para conferir a mesma série da qual falei mal

Primeira e segunda parte de um balanço da primeira metade da terceira temporada, um dos arcos mais interessantes desenvolvidos nesses quatro anos de produção

Melinda May

Agora, vamos ao que realmente interessa, o episódio 15 da quarta temporada, intitulado Self Control. E aqui vai uma dica preciosa: Se não assistiu, assista. Se você parou de ver SHIELD na primeira, na segunda ou na terceira temporada, assista mesmo assim. Se você nunca viu a série na sua vida, assista de qualquer forma.

É interessante e curioso apontar que os espectadores (ou ex-espectadores) de Marvel’s Agents of SHIELD, se dividem em grupos. Há aqueles que constituem a maioria esmagadora, e abandonaram a série antes do chocante plot twist que revelou que um dos principais agentes da SHIELD era, na verdade, um infiltrado da HYDRA. Tem também os que largaram o seriado quando Bobbi (Adrianne Palicki) e Hunter (Nick Blood) saíram a fim de estrelar sua própria produção – que naufragou antes do lançamento do piloto. Há outros que pularam do barco quando Grant Ward (Brett Dalton) morreu na finale terceira temporada. E, por último, mas não menos importante, tem os fãs fiéis como eu – uma minoria – que persistiram até aqui e tiveram a oportunidade de conferir o melhor episódio da produção e, arrisco dizer, uma das melhores coisas que a TV aberta americana produziu em anos. Este mesmo, o Self Control.

Foram tantas reviravoltas que a tarefa de enumerá-las torna-se até árdua, mas nem por isso menos deliciosa.

Radcliff, LMDs, Dakhold e Framework

Agentes enviados para o Framework

A quarta temporada começou dando destaque ao Motorista Fantasma (ou seria Piloto Fantasma?), uma estratégia de marketing para alavancar a audiência da série que vinha entrando em declínio gradativamente – desde o segundo arco da season 3, mais especificamente.  Estratégia, esta, que não se mostrou tão bem sucedida, Provavelmente, Jed Whedon, Maurissa Tancharoen e companhia apenas estavam cumprindo exigências do estúdio ao inserir o cabeça de fogo no meio da história, mas tinham algo maior em mente.

Desde a finale da terceira temporada, ficou claro que o quarto ano do seriado iria se concentrar em LMDs – modelos de vida artificiais. Muitos pensaram que estávamos diante de um novo Ultron, mas a história da revolução das máquinas foi potencializada, alcançando uma profundidade e um refinamento do texto que o segundo longa dos Vingadores sequer passou perto de alcançar.

Após uma conclusão um tanto superficial do arco do Ghost Rider – que teve a sorte de contar com um ator carismático (Gabriel Luna) e efeitos especiais de primeira linha, do contrário tornar-se-ia imemorável e dispensável no contexto geral da série – roteiristas e produtores resolveram conceder destaque à Aida, ao Darkhold e ao Framework. Termos familiares para a fanbase, mas que soam gregos para quem desconhece a mitologia da série, portanto, vamos elucidá-los: Aida é uma andróide criada com o propósito inicial de servir de escudo para os agentes da SHIELD, evitando que eles perdessem outro membro valioso do time como ocorreu com Antoine Triplett (B.J. Britt) e Lincoln Campbell (Luke Mitchell) no passado; o Darkhold trata-se de um livro místico capaz de conceder ao seu leitor conhecimento para desenvolver habilidades tão excepcionais quanto perigosas e é o único elemento que ainda conecta a trama ao arco do Motorista Fantasma, desenvolvido nos primeiros episódios da season e já praticamente esquecido; por fim,  o Framework é  um universo que simula uma realidade alternativa na qual nem enfermidades e nem mesmo a morte são relevantes.

A unidade em comum entre todos estes elementos é um cientista tão brilhante quanto frio e calculista, que não enxerga o limite entre genialidade e loucura, Holden Radcliffe, interpretado pelo fantástico John Hannah. Foi ele quem criou a Aida para servir de proteção aos agentes durante suas missões suicidas. Ao ler o Darkhold, decidiu aprimorar não apenas Aida e outros modelos de vida artificiais (criados à imagem e semelhança dos Agentes da SHIELD) como um software desenvolvido por Leopold Fitz (Iain De Caestecker), cujo objetivo era simular cenários virtuais nos quais os membros da SHIELD pudessem realizar seus treinamentos. A partir do protótipo do programa, Radcliffe desenvolveu um universo muito semelhante ao real, no qual, nas palavras do próprio, “a morte tornou-se obsoleta”.

Mack e o exército de LMDaisys

Deste modo, programou Aida para raptar e substituir os principais agentes da SHIELD por andróides sofisticados, com aparência assustadoramente humana e dotados de inteligência e personalidade dos originais. O que tornou quase impossível distinguir os orgânicos dos sintéticos, a não ser, logicamente, pelos instintos assassinos aflorados no último episódio. Enquanto os robôs tomavam o lugar dos originais na base da SHIELD, estes últimos se encontravam aprisionados no Framework através de um capacete especial capaz de enviar a consciência do usuário para um universo simulado no melhor estilo Matrix.

E é aí que constatamos toda a genialidade de produtores e roteiristas, especialmente de Jed Whedon que não só escreveu como marcou sua estreia na direção, mostrando total domínio da narrativa, controle absoluto das decisões criativas e que tem potencial para se tornar um dos grandes nomes da televisão e do cinema futuramente, superando até mesmo o próprio irmão Joss Whedon em termos de talento na condução de uma trama e construção de personagens.

Jed Whedon entregou o melhor episódio da série até aqui, com alguns dos plot twists mais impactantes, os diálogos mais profundos, cenas mais memoráveis e uma sintonia invejável entre o elenco. Em suas mãos estavam atores com talento interpretativo acima da média e presença de cena admirável.

Amantes desafortunados

FitzSimmons

Os melhores na tela continuam sendo Iain De Caestecker e Elizabeth Henstridge. Juntos, ambos apresentam uma química imbatível. Até aqui, o casal FitzSimmons teve um dos desenvolvimentos mais orgânicos da televisão – seu relacionamento apresenta notáveis camadas de realismo. Ponto para os roteiristas que, ao explorarem a história e a dinâmica do duo, tornaram o velho trope dos melhores amigos que se apaixonam algo realmente funcional e crível. Convém dizer que eles representam um dos poucos ships atuais que não irritam e não comprometem a boa fluência da narrativa como em produções da The CW. Em Self Control, tanto se analisados como uma equipe quanto individualmente, os intérpretes de Fitz e Simmons garantiram um desempenho fantástico, digno de reconhecimento de grandes premiações. O que não vai acontecer, infelizmente, por conta do preconceito contra o gênero da série, o que se trata de uma flagrante injustiça.

Em uma das cenas de maior carga emocional de toda a história do seriado, ambos conseguiram confundir os espectadores, bem como levá-los às lágrimas e ao choque com a mesma intensidade e em um intervalo relativamente curto de tempo. Iain De Caestecker, especialmente, muda de expressão de maneira espantosa, indo do mocinho (a vítima arrependida e emocionalmente destruída) ao vilão (cruel e cínico, dotado de extrema frieza) com uma naturalidade impressionante. Raros atores conseguiriam administrar tão bem quanto ele todas essas emoções antagônicas. Ver o casal pelo qual tanto torcemos desde que eram apenas amigos na primeira temporada – e que já partilharam beijos apaixonados – em uma cena tão devastadora, emulando um horror movie – em meio a golpes de facas e outros objetos contundentes quando da revelação de que Fitz foi trocado por um LMD – é algo que brinca com o coração dos fãs, especialmente dos shippers, de maneira atroz. E, mesmo como shipper, afirmo que a sequência e o efeito que ela causa no espectador são simplesmente magníficos.

Destaque também para o diálogo final entre Melinda May e Phil Coulson. Contrastando com a entrega poderosa de Henstridge e De Caestecker, Ming-Na Wen e Clark Gregg nos proporcionaram um dos melhores diálogos da season, com expressões e tons de voz contidos, e mesmo assim capazes de emocionar. Acabou soando com um encerramento sutil e melancólico dessa fase da história de May e Coulson.

Vale a pena mencionar Chloe Bennet também, afinal a intérprete de Daisy Johnson apresentou ao público todo o potencial da Quake em lutas acrobáticas amparadas por efeitos especiais fantásticos – o embate contra os LMDs de Mack (Henry Simmons) e Coulson foi nada menos que um espetáculo visual, um verdadeiro show à parte. A inumana também mostrou capacidade de liderança e raciocínio tático em momentos difíceis que poderiam quebrar o emocional de qualquer um em seu lugar (e quase quebraram no caso de Jemma Simmons). Ela não se deixou abater e, corajosa, enfrentou vilões robóticos com as caras de seus amigos, dando início à operação de salvamento de seu time sem pensar duas vezes.

Aparando arestas

No framework, os agentes da SHIELD são agentes da HYDRA

Agents of SHIELD, desde o início, vem apostando em uma estratégia que tanto pode ser um sucesso quanto um risco, dependendo de inúmeros fatores. Quando um ano se inicia em SHIELD, temos a certeza de que haverá novidades, tramas que vão desestabilizar o time e inserções de plots que vão surpreender os espectadores. A cada nova temporada, há a sensação de estarmos diante de uma nova série. O que pode ser bom ou ruim, positivo ou negativo.

Positivo pelo fato de que a produção sabe se reinventar e isso é ótimo. Evita que se renda ao marasmo narrativo, acabe por abordar sempre os mesmos conceitos e soe como uma constante repetição de si mesma. Por outro lado, Agents of SHIELD nunca teve uma identidade bem definida. Aliás, nunca conseguiu construir uma identidade. A permanente reinvenção atraiu novos espectadores nesses quatro anos, mas afastou outros tantos acostumados a uma determinada dinâmica deixada definitivamente para trás a cada conclusão de temporada.

Sempre há novos arcos – praticamente sem ligação com os das seasons anteriores e cujo único elo efetivo são os personagens. Personagens carismáticos, pelos quais o público já nutre carinho e empatia. O problema é que enquanto alguns permanecem fiéis às caracterizações iniciais, à essência original – ao mesmo tempo em que apresentam crescimento e evolução naturais –  outros mudaram completamente.

Um exemplo que ilustra bem o primeiro caso é FitzSimmons que, a princípio, constituíam a dupla de gênios nerds que sequer gostavam de sair do carro durante as missões e agora até travam lutas corporais e coreografadas com bem treinados vilões. De estereotipados, tornaram-se tridimensionais. Outros, como Daisy Johnson, nem parecem os mesmos do piloto (nem o mesmo nome ela manteve…). A própria Chloe Bennet, já declarou em entrevistas que tem a impressão de que fez audição para uma personagem totalmente diferente daquela que interpreta hoje. Não é impressão, é realidade. As suas mudanças não foram orgânicas, gradativas e plenamente justificadas como as de May, Fitz e Simmons.

Daisy Johnson e Jemma Simmons

Portanto, ao situar os personagens que já conhecemos e aprendemos a amar durante esses quatro anos em uma nova realidade, Whedon tem a chance de aparar arestas deixadas pelas temporadas anteriores, reviver personagens que morreram sem um desfecho satisfatório e mesmo outros que simplesmente se encontram no limbo da série há algum tempo (como o Deathlok). Em suma, é uma boa oportunidade de revisitar a mitologia construída nessas quatro temporadas, respondendo perguntas que ficaram sem resposta (o Gravitonium, por exemplo) e trabalhando outro lado dos personagens – sem os arrependimentos e traumas que os restringiram emocionalmente e possibilitando ao talentoso elenco abordar novas facetas das figuras já tão conhecidas e amadas pelos fãs.

Uma decisão tão inteligente e engenhosa quanto conveniente e favorável. Mas nem por isso covarde. Assim como Bryan Singer apostou em viagens no tempo para consertar a cronologia confusa dos filmes da franquia X-Men, Whedon optou por simulacro e realidade alternativa. Uma decisão que pode soar simplista para muita gente, mas passa longe de ser. O espectador tem ciência de que o que está sendo feito é uma chance de reinventar a trama, preencher lacunas e restaurar o equilíbrio, mas isso de forma nenhuma tira o barato de se aventurar por essa jornada a fim de estabilizar e organizar a estrutura tão comprometida. Singer fez grande cinema. Whedon promete fazer grande televisão.

Afinal, realidades paralelas, universos alternativos, mundos simulados sempre são capazes de proporcionar tramas fantásticas, desde que os conceitos sejam bem trabalhados. Não é por isso que fanfics fazem tanto sucesso no meio virtual? Por recorrerem à deliciosa lógica do what if…? E não é por este mesmo motivo que A Felicidade Não Se Compra é um grande clássico do cinema? Por se amparar em uma lógica similar?

Apostando em um trocadilho com o próprio Framework, esse arco que fechará a quarta temporada (e que vem com um sabor agridoce de despedida, afinal a série ainda não recebeu sinal verde de renovação), surgiu para recalibrar as engrenagens de Agents of SHIELD. E que assim seja.

A série se encontra em hiatus no momento, mas o terceiro e último arco da quarta temporada retorna dia 4 de abril na ABC.

O conceito de simulacro é algo que me interessa bastante. Para quem, como eu, é um curioso do assunto, vale a pena não apenas aguardar o retorno da temporada de Agents, como ver outros filmes além de Matrix que abordam essa temática de universos que simulam uma realidade. Por aqui temos a resenha de Dark City: Cidade das Sombras e 13º Andar.  

Enjoy 😉

Andrizy Bento

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