Até O Último Homem

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A cena que abre o novo exemplar da filmografia de Mel Gibson sintetiza toda a obra: soldados americanos heroicos em slow motion, arriscando suas vidas na guerra e lutando com honra até seus últimos minutos, acompanhados de um voice-over de cunho religioso. Então, tem início a jornada do herói; recorrendo ao infalível recurso do flashback, o roteiro faz questão de destacar o momento trágico na infância do protagonista responsável por mudar seu destino para sempre. Ele diz à sua mãe que poderia ter matado acidentalmente o próprio irmão, ao que sua mãe exclama: “matar é o pior dos pecados”.

Para além das obviedades que dominam a tela somente nos primeiros dez minutos de projeção, há um diretor que imprime um tom ufanista e religioso em cada fotograma com tamanha convicção que não parece haver outro objetivo que não seja o de impor sua visão e convencer o espectador de que aquela é a verdade pura e incontestável.

Seguindo uma fórmula saturada, o filme de Gibson acaba caindo em todas as armadilhas dessa fórmula e, para completar, ainda conta com a mão pesada e os vícios narrativos de seu diretor, que nunca fez questão de sutilezas, como é possível conferir em suas incursões anteriores como cineasta.

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Até o Último Homem conta a história real (mas, aqui, cerceada de romantismo e floreios) de Desmond T. Doss (Andrew Garfield), o chamado primeiro Opositor Consciente da história dos Estados Unidos. Doss se alista durante a Segunda Guerra Mundial, com o único objetivo de atuar como médico do exército americano. Seguindo à risca o quinto mandamento Não matarás”, que sua mãe já havia frisado na ocasião mencionada alguns parágrafos atrás, Doss se recusa veementemente a pegar em armas e matar inimigos, o que gera situações violentas e traumáticas durante o treinamento militar. Doss passa a sofrer constantes perseguições e humilhações de seus superiores e dos demais soldados que tentam a todo custo dissuadi-lo de servir.

Com um discurso repleto de conservadorismo, defendendo suas crenças sem o menor pudor e descomedimento, Gibson transforma Doss em um herói cristão e imaculado tão fervoroso que mal consegue fazer o espectador acreditar que a história é baseada em fatos. Andrew Garfield é competente ao desempenhar seu papel, mas a narrativa maniqueísta destoa da realidade e o caráter demasiado ingênuo de seu personagem soa até incômodo.

A primeira parte do filme se limita a narrar as motivações que levaram Doss a servir como médico na guerra além de apresentar uma história de amor pueril e ensolarada entre o jovem soldado e sua futura esposa, Dorothy (Teresa Palmer). Esse primeiro ato contrasta abruptamente com o banho de sangue no clímax do filme, quando Gibson se propõe a impactar com tomadas de corpos dilacerados, mutilados, desmembrados, recorrendo à violência gráfica explícita que impressiona não por um desenho de produção eficiente, mas pela falta de equilíbrio e prudência do diretor.

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É particularmente constrangedor como Gibson tenta evocar Stanley Kubrick e Steven Spielberg em seu longa, sem jamais chegar à excelência de seus homenageados. A cena do treinamento militar é uma referência descarada a Nascido Para Matar e, se a intenção era prestar um tributo, acabou por soar mais como um plágio infame que fica aquém até mesmo daquele feito em Os Simpsons (que reproduziu a cena em um tom cômico centenas de vezes melhor). Já de Spielberg, o diretor tentou emprestar o teor visceral e a ostensiva carga dramática ao filmar as atrocidades da guerra em sequências intermináveis, cruéis e altamente sanguinárias. A Gibson, contudo, falta a sutileza e o domínio rigoroso da mise-en-scène que sobram no diretor de O Resgate do Soldado Ryan. Pelo menos, o engenhoso design de som é competente e, sim, algumas passagens são bem executadas. O problema é abusar excessivamente da câmera lenta e ser tão específico a ponto de tornar o visual apelativo.

Para variar, os soldados americanos são tratados como os heróis leais e nobres. Os inimigos japoneses como os cruéis vilões sem alma e sem coração de filmes de terror. Eles se reduzem a artefatos letais, bombas potentes, sem nenhum resquício de humanidade. Os japoneses não estão lutando pelo seu país, não planejam voltar para casa, para suas esposas e filhos como os nobres americanos. Eles estão nessa apenas pela sede insana e insaciável de sangue, de vísceras, de mutilação. São máquinas de matar. E tudo neste filme tem uma única finalidade: ilustrar o caráter e honradez de seu protagonista. Garfield personifica o ícone americano, bravo e religioso, salvando soldados (até mesmo japoneses) em meio a toda a violência e caos, sem matar ninguém. Chuta até uma granada para longe em uma passagem que desafia o espectador a suspender a crença por um segundo por soar deveras inverossímil, embora haja relatos de que a cena ocorreu de fato.

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E como já era de se esperar, depoimentos do verdadeiro Desmond Doss e de outros personagens reais que viveram na pele a história retratada nas telas, surgem ao final da projeção, logo antes dos créditos, cimentando Até o Último Homem como um melodrama de guerra tipicamente hollywoodiano e com o plus de ser assinado por Mel Gibson. E isso está longe de ser um elogio.

★★

Andrizy Bento

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