Fences: Um Limite Entre Nós

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Mais do que os personagens em si, são as atuações que constituem a força motriz de Fences, longa cuja direção é assinada por Denzel Washington que também protagoniza o filme. Um Limite Entre Nós (título genérico que a produção recebeu por estas bandas) não faz nenhum esforço em esconder que se trata essencialmente de um filme de atores.

Baseado na aclamada peça de teatro homônima escrita por August Wilson – que também assina o roteiro do filme – e protagonizada por Washington nos palcos – o que lhe rendeu um prêmio Tony há sete anos – o longa é centrado na vida de um ex-jogador de baseball que nunca conquistou o sucesso almejado. Mais velho, casado, pai de dois filhos e com passagem pela prisão, Troy Maxson trabalha como coletor de lixo a fim de sustentar sua família. Em um dado momento, acaba promovido a condutor do caminhão de coleta e, quando as coisas pareciam estáveis, seu relacionamento com a família desanda.

A história do protagonista vai sendo contada pelo mesmo sem o auxílio de flashbacks. O próprio Troy a narra em conversas com a família e o melhor amigo. Assim o roteiro une a crueza da narrativa com a intensidade dos diálogos e a sensibilidade das performances de Washington, Viola Davis (que interpreta sua esposa, Rose), Jovan Adepo (no papel do filho, Cory), dentre outros.

Troy Maxson é um personagem difícil, irreverente, que tanto desperta a consternação do público em determinadas cenas, quanto a complacência. É impossível ficar indiferente diante de seu modo de encarar a vida. Constantemente revoltado com as oportunidades que lhe foram negadas no passado, ele reclama de tudo à sua volta, sempre insatisfeito, sem tempo para sonhos e esperanças, achando que deve se colocar no seu lugar (ou o que ele acredita fervorosamente ser o seu lugar) e não aspirar a nada diferente. E expressa isso de maneira cáustica, ácida, por vezes truculenta, revestindo sua revolta e inconformismo com um jeito debochado, procurando tirar sarro da vida de modo espontâneo. O que se sobressai em Fences é a caracterização perfeita do personagem.

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Outra que merece atenção é Viola Davis, sempre magnânima, sua personagem tinha tudo para resvalar no superficial, mas como é de praxe, a atriz entrega uma performance segura e eficiente, revestindo o papel ingrato da esposa perfeita de camadas que a tornam crível e  mais próxima do real possível.

Mas, se por um lado, Denzel impressiona com sua atuação, sendo inclusive indicado (merecidamente) ao Oscar de melhor ator, por outro, fica devendo como cineasta.  Ele faz exatamente o que o roteiro exige, sem nenhum grande momento no que concerne à direção.

Toda a problemática do roteiro gira em torno de dois momentos específicos: primeiro quando Cory, o filho de Troy e Rose, decide jogar baseball. Não fica bem claro se o protagonista teme o fato de o filho conseguir chegar aonde ele nunca chegou ou se ele quer simplesmente abrir os olhos do garoto para uma dura realidade, possibilitando que ele tenha um destino diferente do que o pai teve. Troy acredita piamente que apostar nos esportes ainda é um risco para quem pertence à mesma raça e classe social que ele, e toda a dedicação e esforço do filho podem acabar não dando em nada. O segundo momento de ruptura na família acontece quando é revelada a traição de Troy, inclusive que ele terá um filho fora do casamento. A partir daí, ele tenta alcançar a redenção, resolver seus conflitos dentro de casa, e acaba inevitavelmente isolado pelos demais.

A metáfora da cerca que intitula o filme – manter as pessoas dentro ou fora de seu lar – é sutil, ainda que não fuja da obviedade e jamais seja bem explorada. Alguns trechos soam um tanto quanto forçados e melodramáticos demais. O longa demora um pouco a encontrar tanto o seu tom, quanto seu ritmo.

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Fences está longe de ser um grande filme. Nem mesmo dá para entender a sua indicação ao Oscar. Trata-se uma obra honesta, válida, mas que passa longe da excelência de um Manchester À Beira Mar, Moonlight, A Chegada ou A Qualquer Custo – seus rivais na categoria. Talvez o problema seja o fato de soar como um teatro filmado. Eis um filme que sofreu no processo de adaptação dos palcos para as telas. Por se tratar originalmente de uma peça, com poucas locações e muitos diálogos expositivos, ele não consegue se desvincular de suas raízes no teatro e o resultado é nada mais do que mediano.

★★½

Andrizy Bento

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