Doutor Estranho

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Logo em sua primeira metade, Doutor Estranho já nos ensina três valiosas e primordiais lições: A primeira é que quando a medicina não é o suficiente para alcançarmos a cura, devemos recorrer à fé. Mas cuidado com os charlatões que existem aos montes por aí causando lesão à crendice popular. Segunda que você deve ser humilde acima de tudo. Deixe sua arrogância e complexo de superioridade de lado, pois eles não o levarão a lugar algum. Aliás, te levarão à ruína, portanto seja nobre e modesto. Terceira e não menos importante: jamais fale ao celular enquanto está dirigindo.

Brincadeira. Vamos levar esse texto a sério!

De fato, Doutor Estranho mostra tudo o que foi mencionado acima, mas não de uma maneira piegas. Sim, ele versa sobre a importância da fé. Mas não tem nada a ver com religião e, sim, com a fé que depositamos em nós mesmos. A força, a vontade de lutar e a capacidade de enfrentar e superar os obstáculos devem partir apenas de você. Do contrário, não há Anciã, mesmo que interpretada brilhantemente por Tilda Swinton, capaz de te levantar após uma queda.

O filme, dirigido por Scott Derrickson, acompanha o tão talentoso quanto arrogante neurocirurgião Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) que, após um acidente automobilístico, sofre danos irreparáveis em suas mãos – fundamentais para o seu trabalho. Ele recorre aos melhores especialistas, mas nenhum lhe apresenta um prognóstico otimista. Desprovido de esperança, de sua prestigiosa carreira e do carinho e apoio da única pessoa que realmente parece se importar com ele (a doutora Christine Palmer, vivida pela onipresente Rachel McAdams), Strange utiliza seus últimos recursos financeiros em uma viagem (passagem só de ida) para o Nepal em busca de cura. Apesar do ceticismo inicial, logo ele se torna um aprendiz de mestre, tendo a enigmática Anciã como sua mentora e descobrindo um mundo oculto de magia e dimensões alternativas que vão muito além da percepção humana.

O novo longa da Marvel narra a jornada de um jovem James Bond neurocirurgião que, após um acidente, vai para Hogwarts e… não, não é bem isso.

Doutor Estranho sempre foi um dos personagens mais interessantes, fascinantes e intrigantes da Marvel. E vê-lo finalmente retratado nas telas é um deleite para todos os marvetes. Felizmente, ele encontra em Benedict Cumberbatch o seu intérprete perfeito. O ator já havia mostrado seu talento para compor personagens que veem seu próprio brilhantismo como justificativa para portar um ar soberano e superior – em suma, um ególatra e narcisista mas, que no fundo, possui bom coração – em Sherlock, a minissérie da BBC cujas temporadas são compostas de apenas três episódios e o intervalo entre elas é de duzentos anos. A evolução de Strange é bem representada por Cumberbatch. Ao aprender a manusear poderes ocultos, ele vai se tornando um ser humano melhor, mas sem perder sua essência debochada e altiva.

O elenco, que também inclui Chiwetel Ejiofor como Karl Mordo (apresentando uma faceta distinta a das HQs) e Benedict Wong como Wong, possui uma presença de cena marcante, e todos os atores se entregam aos seus personagens, o que ajuda a dar plausibilidade a uma trama totalmente fundamentada na magia, misticismo e forças sobrenaturais, além de amparada por um visual fantástico e surreal.

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Os títulos em quadrinhos da Marvel Comics sempre foram mais centrados na ciência (vide Hulk, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, Capitão América, todos vítimas ou resultado de experimentos científicos), ao contrário da DC Comics que trabalha com deuses e elementos místicos desde seus primórdios. A Marvel Studios já tinha dado alguns passos modestos neste campo da fantasia com Thor, mas ainda não havia atingido todo o seu potencial. Com Doutor Estranho, o MCU adentra de vez um terreno ainda inexplorado nas obras do estúdio, abraçando a magia definitivamente, amplificando o universo da Marvel no cinema, tornando infinitas as possibilidades para os vindouros filmes da casa, redimensionando e redesenhando o panorama dos heróis criados por Stan LeeJack KirbySteve Ditko e outros na telona.

O visual tem sua grande parcela de responsabilidade no sucesso artístico e comercial da obra. A direção de fotografia valoriza os cenários extremamente bem projetados e construídos, além da coreografia dos embates físicos. O desenho de produção é eficiente ao arquitetar um universo fantástico, porém crível, e não desperdiça a oportunidade de brincar com todo o aspecto transcendental da obra oriunda dos quadrinhos. Trata-se de um filme que não tem medo de arriscar no aspecto visual, o que só enriquece o MCU. Entretanto, nem sempre o CGI acerta, pois há algumas cenas que, infelizmente, apresentam um desconcertante aspecto de videogame.

Em meio a cidades inteiras se desconstruindo, espaços urbanos sendo geometricamente alterados, lutas que envolvem a força do espírito e poderes sobrenaturais e uma paleta cromática que forma um espectro psicodélico de cores beirando o hipnotizante, há um roteiro bem escrito, que torna aquele universo desenhado na tela palatável mesmo aos espectadores mais ranzinzas que sempre viram a ciência como o pilar infalível que sustenta as produções da Marvel. Não há com o que se preocupar. O aspecto mágico e místico é trabalhado de maneira eficiente.

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Lógico que há problemas. O vilão (Kaecilius interpretado por Mads Mikkelsen) continua sendo o calcanhar de Aquiles como na maioria dos filmes do estúdio. Sempre uma versão mais ambiciosa e maligna do herói, com os mesmos poderes e uma origem similar. O ritmo do longa também é apressado demais, o que o enquadra na esfera dos filmes de origem típicos, com muita exposição e uma correria desenfreada a fim de contar a história do herói e situá-lo naquele universo.

Mas o problema maior está no fato de que o Doutor Estranho é um personagem que merecia um filme mais ambicioso. Embora eu tenha elogiado o roteiro e o visual, a verdade é que o conjunto da obra nunca passa de apenas competente e correto, investindo na mesma fórmula Marvel que deu certo até agora em todos os filmes do estúdio. Do primeiríssimo Homem de Ferro a Capitão América: Guerra Civil, passando por Thor, Guardiões da Galáxia e Homem Formiga: Divertido, bem humorado, colorido e repleto de lutas eletrizantes. Resumindo, temos o herói carismático + ação + piadinhas. E essa fórmula corre o risco de saturar. No caso do Estranho, o filme que tinha tudo para ser o mais atrevido e inventivo do MCU, não sai da zona de conforto. É um excelente entretenimento, mas pouco ousado no que tange, principalmente, à estrutura narrativa.

Por incrível que pareça, é nessas contradições que reside o barato do longa. No ápice do filme, quando chega o momento de derrotar o vilão – em uma análise mais superficial – a alternativa soa simplista. Mas é um fato que condiz com os traços típicos do herói (aliás, mago supremo) apresentados até ali. Ele está disposto a se sacrificar pelo mundo utilizando de sua arrogância e personalidade debochada. Da mesma forma que Strange sempre foi um médico cheio de soberba, mas cujo principal objetivo era salvar vidas. Sua preocupação com a humanidade não é ofuscada nem mesmo pelo seu orgulho e altivez. E esse é o mérito do roteiro e da atuação de Benedict Cumberbatch, jamais trair a essência daquele que é um dos mais cativantes personagens da Marvel.

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E a ansiedade grita desde já para vermos Strange interagindo com os demais heróis do MCU. Nesse filme já temos um gostinho em uma cena escondida no meio dos créditos.

Doutor Estranho é o longa que inaugura a magia da Marvel no grande ecrã e também a nossa cotação em estrelas. Lá vai:

★★★½

Andrizy Bento

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