Mr. Robot – 2×06: eps2.4_m4ster-s1ave.aes

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Uma das séries de maior sucesso da atualidade, premiada no Globo de Ouro como melhor série dramática, aclamada pela crítica e repleta de plot twists e teorias mirabolantes capazes de tirar o sono dos fãs. Creio ser dispensável se prolongar muito em uma introdução de Mr. Robot – premissa, conceitos e personagens – uma vez que se você é um seriemaníaco exemplar, certamente já se deixou envolver e seduzir pelo universo enigmático e instigante criado por Sam Esmail e exibido pela USA Network. Se não, bem, o que está esperando para se atualizar em Mr. Robot?

Já é o segundo ano acompanhando a jornada de Elliot (Rami Malek), um jovem programador completamente antissocial e que utiliza suas habilidades como hacker para fazer justiça, exercendo o papel de vigilante noturno e invadindo contas de delinquentes e pervertidos cibernéticos. Mas Elliot passa longe de ser um herói. Ele hackeia seus próprios contatos sociais como um método de compensar a sua dificuldade em se conectar às pessoas de seu convívio, descobrindo informações sigilosas e indecorosas de suas vidas pessoais. Isso não é tudo. Ele é viciado em morfina; se junta a um grupo de hackers que tem como objetivo destruir a própria empresa em que ele trabalha durante o dia; e costuma conversar e ser dominado pelo espírito do pai morto (Christian Slater). Na verdade, é como se essa entidade com a aparência de seu pai representasse seu alter ego.

Além da narrativa brilhante, os quotes geniais e as referências à cultura pop, a produção americana impressiona pelo visual, pelos enquadramentos anti-convencionais, pela composição de planos que busca fugir da rigorosa regra dos terços – com os personagens sempre no canto da tela, quase como quisessem evadir-se da cena, soando diminutos, esmagados pelo ambiente ao redor.

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O foco deste post, no entanto, é especificamente no 2×06, intitulado eps2.4_m4ster-s1ave.aes, um episódio audacioso em sua linguagem e visual – mesmo para os padrões da série – portanto, não dava para deixar passar em branco e não falar dele por aqui. Os primeiros dezessete minutos surpreendem e são de deixar qualquer um boquiaberto. E isso vale também para aqueles que já estão acostumados com as reviravoltas e as sacadas espantosas da trama. Francamente, ninguém esperava por essa. Estes 17 minutos iniciais quase compreendem aquilo que os americanos costumam chamar de bottle episode – episódios realizados com menos recursos, orçamento menor, cenários e efeitos escassos e contando com poucos membros do elenco regular.

Acima de tudo, o 2×06 é um episódio que pensa fora da caixa. E eu sou suspeita para falar, pois adoro episódios que subvertem toda a dinâmica da narrativa de uma série (é o caso de Brown Betty de Fringe).

O eps2.4_m4ster-s1ave.aes brinca com todas as convenções e chavões do formato de sitcom – as tradicionais comédias de situação americanas que possuem episódios curtos e laugh track, que nada mais são do que as famigeradas risadas de fundo. De I Love Lucy a The Big Bang Theory, passando por SeinfeldFriends How I Met Your Mother, volta e meia nossa televisão é tomada de assalto pelas mais diversas sitcoms.

A princípio, dá para pensar que os produtores só queriam mesmo dar um nó ainda maior na cabeça dos espectadores, rendendo-se de vez à esquizofrenia ao criarem um episódio inteiramente absurdo e insano. Porém, os diálogos afiados e o humor sádico ilustram, de maneira inteligente e pseudo-cômica, todos os tormentos de Elliot e a problematização da série. Também não deixa, em nenhum momento, de ser fiel à essência da trama que desde o piloto faz críticas ácidas à sociedade alienada e manipulada pelos meios de comunicação social, inclusive pela televisão. E o fato de a história toda estar se desenrolando na mente perturbada de Elliot, preso em um agoniante universo artificial, mais do que justificam a ideia maluca dos produtores e roteiristas. A cereja no topo do bolo é a participação do clássico personagem Alf. O protagonista da emblemática sitcom homônima dos anos 80 também não é jogado no meio do redemoinho de loucuras de maneira gratuita. Elliot alucina e com razão, e todos os mistérios da série vão sendo revisitados e reinterpretados de uma maneira inusitada que nem o fã mais fiel poderia antever.

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A abertura da série, trilha sonora, os figurinos, cenários e referências à década de 1980, tudo corrobora a atmosfera proposta. A produção é certeira até mesmo ao respeitar o formato de tela (fullscreen ao invés de widescreen) e a duração dos episódios de sitcom: como já mencionado, essa paródia do gênero só toma a tela nos primeiros 17 minutos e com tudo o que tem direito (até as propagandas). Depois dessa vibe non-sense do início (mas que faz, sim, absoluto sentido), Mr. Robot prossegue com o drama e suspense de sempre, centrando a narrativa no plano de Darlene (Carly Chaikin) e Angela (Portia Doubleday) de hackear o FBI. Esta última é surpreendida durante a execução do plano pela agente Dominique (Grace Gummer) que é forçada a se afastar por um tempo após sobreviver a um ataque terrorista no episódio anterior – sob a alegação de que poderia estar com stress pós-traumático. E para fechar com maestria este delicioso episódio, temos mais uma espiada no passado de Elliot e Edward Alderson. Outro flashback mostrando o relacionamento entre pai e filho e que acerta em cheio na tonalidade emocional.

E, desse modo, a série vai se desenrolando de maneira instigante. Todos os três segmentos que compõem o 2×06 transformaram este no episódio mais memorável da produção até aqui. Mas, sendo sincera, só aquela primeira parte da sitcom já foi o suficiente para ele garantir este posto.

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Adendo: a presença de Christian Slater em todas as três partes do episódio é simplesmente fenomenal. Em algumas passagens vitais do episódio, Rami Malek cede seu posto de protagonista e deixa seu coadjuvante brilhar, o que acaba se tornando uma vitrine perfeita para futuras indicações em importantes premiações televisivas para Slater.

Andrizy Bento

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