Personalidade: Rede Manchete

“O importante não é ser, ter ou parecer. O importante é fazer, construir e desenvolver” (Adolpho Bloch)

Rede Manchete, a televisão do futuro:

Como falei no texto anterior, nutro uma verdadeira admiração pela emissora de Adolpho Bloch, por seu caráter singular e por priorizar a inovação. Ela trazia uma nova linguagem, desafiando os padrões estabelecidos, constituindo uma identidade própria e se firmando como uma alternativa à Rede Globo. O que faltou e falta às outras emissoras – e possivelmente é o motivo de elas amargarem eternamente a vice-liderança – é o fato de quererem copiar e repetir as propostas da Rede Globo, ao invés de surgirem com ideias inovadoras e diferenciadas como a Rede Manchete. A Manchete fazia frente à Globo, porque seus diretores artísticos sabiam que repetecos e plágios não alcançam o sucesso do original, que o importante é ser criativo. Se você quer ter seu espaço e entrar na luta com as concorrentes, você deve ser original; investir em propostas diferentes e ousadas.

As novelas da Rede Manchete constituem o exemplo mais emblemático. Além do requinte na produção, eram mais maduras e adultas no formato e na linguagem. Costumavam mesclar extremo realismo na maneira como eram filmadas, com enredos repletos de elementos fantasiosos e que estimulavam o imaginário do espectador. Os diálogos eram recheados de gírias e palavras de baixo calão, sem o pudor Global com seus colóquios artificiais. E, por falar em pudor, nudez e erotismo eram elementos recorrentes nas novelas da Manchete. Sempre de uma maneira artística, não apelativa. Atores consagrados dividiam a tela com novos e interessantes talentos que despontavam. Suas tramas eram fortes, ousadas, controversas, com muito mais cenas externas e pouco estúdio. Era um novo jeito de se fazer novela. Uma alternativa interessante de teledramaturgia para quem estava cansado das produções redondinhas da Rede Globo.

Ao contrário das demais emissoras, dinamismo e agilidade na informação não eram as palavras-chaves do jornalismo da Manchete. Pelo contrário, seus programas jornalísticos eram mais penetrantes, de um aprofundamento sem igual, com reportagens especiais extensas, completas e marcantes. Para se ter uma ideia, o Jornal da Manchete – principal telejornal da emissora durante toda a sua trajetória –  começou tendo duas horas de duração, sendo ancorado por diversos jornalistas (que se revezavam durante o tempo em que o programa ficava no ar), apostando em diferentes segmentos jornalísticos (geral, cultural, esportivo…). Exclusividade era mesmo com o jornalismo da Manchete, que conseguia seus furos de reportagem na coragem, ousadia e irreverência. Os repórteres estavam no lugar certo e na hora certa devido à confiança em seu faro jornalístico. Não à toa, a Manchete fez história com um programa, estilo documentário, que só não é a maior audiência da emissora, porque Pantanal tornou-se um fenômeno da teledramaturgia posteriormente. Falo do Documento Especial: Televisão Verdade que mostrou, pela primeira vez na televisão, ritos religiosos, culturas e fatos do Brasil e do mundo que os telespectadores desconheciam. Na verdade, mostrou um universo que o espectador comum não fazia ideia da existência.

A emissora também investia pesado em sua linha de shows que angariou notoriedade devido ao acuro técnico. O canal abria espaço para o popular e o erudito e lançou nomes que se tornariam extremamente famosos nas décadas seguintes.

Manchete também foi pioneira na divulgação de seriados e animações japonesas, lançando a febre dos tokusatsus, mangás e animes por aqui. Mesmo com os diversos cortes nos OVAs que eram exibidos na faixa U.S. Mangá Corps do Brasil, pode-se dizer que foi a emissora dos Bloch que abriu portas para a cultura pop nipônica no Brasil, fazendo com que o povo daqui se interessasse em correr atrás de fitas de vídeo das animações japonesas em locadoras.

Entretanto, o que ela possuía em inovação e ousadia, faltava em planejamento. Os gastos dispendiosos e a ambição exacerbada levaram ao seu desfecho prematuro. Para uma emissora do porte da Rede Manchete, com aquela estrutura, a falta de planejamento apenas denuncia não a incompetência exatamente, mas um amadorismo de doer.

Os atrasos no pagamento dos salários de seus funcionários e os descumprimentos dos direitos trabalhistas, desencadearam inúmeras greves, como é possível ver nos vídeos abaixo – registros históricos de fatos, até então, inéditos na televisão brasileira.

Era curioso e, ao mesmo tempo, lamentável assistir de camarote ao declínio de uma das melhores emissoras de televisão do país.  Virando manchete (com o perdão do trocadilho) na concorrência, que anunciava sua derrocada, na época, impossível de frear.

A Rede Manchete é um exemplo de que é necessário se ter ambição. Afinal não evoluímos se não sonharmos. Mas é necessário comedimento e galgar degrau por degrau com passos seguros. Se optarmos por correr pela escada, corremos o sério risco de tropeçarmos, cairmos e termos de começar do primeiro degrau novamente… Quando pode ser tarde demais.

Admiro a ousadia e a ambição da Rede Manchete. Mas houve um momento em que essa ambição se tornou irrefreável e na ânsia de competir de igual para igual com a Rede Globo em todos os setores, a Manchete e seus responsáveis quiseram abraçar o mundo com as pernas, investindo bilhões em cruzeiros na época, fazendo coisas que estavam além de seu alcance, de suas reais condições, faltando-lhes recursos. Investir tanto dinheiro em uma novela (no caso da fracassada Brida) sem ter nenhuma garantia de retorno comercial, é suicídio. Ainda que contasse com verba publicitária.

Eu não sou formada em marketing. Tudo o que sei sobre o assunto aprendi em algumas aulas durante a graduação e especialização. Mas qualquer um consegue enxergar que o problema da Manchete era falta de planejamento e visão de mercado. Foi uma emissora certamente de vanguarda, mas que não soube lidar com o próprio sucesso.

A história da Rede Manchete é permeada por contradições das mais absurdas. A emissora imponente e com ideais ambiciosos, mergulhou em uma crise sem fim e acabou por decretar falência, ficando apenas na memória;

Seu acervo repleto de registros históricos e extremamente importantes para a história da televisão brasileira e da América Latina, não recebeu os devidos cuidados e valor após a quebra da emissora e de todo o Grupo Bloch;

Houve uma época, quando já estava afundada em dívidas e em uma crise incontornável, que arrendou horários de sua programação para a Igreja Renascer em Cristo, cujos responsáveis quase se tornaram proprietários majoritários do canal, não fosse o fato de não cumprirem um acordo com Pedro Jack Kappeller (então Presidente da emissora, após o falecimento de Adolpho Bloch). O que é irônico, haja vista que um dos programas de maior audiência da Manchete, o jornalístico Documento Especial, já citado anteriormente, apresentou em 1989 uma edição que marcaria época sobre as Igrejas Evangélicas no Brasil. Com um tom longe de qualquer parcialidade, denunciava as pentecostais como uma máquina de angariar dinheiro, aproveitando-se da fé de ingênuos e pouco instruídos fieis, mostrando as fortunas hiperbólicas de pastores e o caráter bizarro e histeria dos cultos;

Um produto de teledramaturgia, a novela Pantanal, foi a sua maior audiência (na época, alcançava facilmente os 40 pontos no ibope, fazendo a Globo amargar a vice-liderança, com 15 pontos). E foi exatamente uma telenovela que decretou de vez o fim da Manchete: Brida, provavelmente o maior fracasso da teledramaturgia brasileira, interrompida antes do fim;

Para completar, não tem como não deixar de mencionar um dos primeiros slogans do canal: Rede Manchete, a televisão do ano 2000. E que não chegou a ver o ano 2000 acontecer, uma vez que fechou as portas em maio de 1999.

De qualquer forma, marcou minha geração e a anterior. Uma pena que os nascidos na década de 90 não puderam acompanhar melhor essa televisão revolucionária na forma e conteúdo. Por mais que ela tenha sido extinta, ainda é um exemplo a ser seguido em termos de inovação e televisão de qualidade. Mesmo que não tenha sobrevivido aos anos 2000, ela continua sendo a televisão do futuro. O que importa mesmo é que ela aconteceu, virou Manchete.

“A vida só é digna de ser vivida quando se faz algo pela vida em vida” (Adolpho Bloch)

Abertura de Kananga do Japão

Abertura de Dona Beija

Abertura de Pantanal

A História de Ana Raio e Zé Trovão (primeira e única novela itinerante da TV brasileira)

Abertura de Xica da Silva

Abertura de O Marajá

Abertura de Amazônia

Abertura de Brida

Documento Especial – Igrejas Evangélicas

Documento Especial – Os Pobres Vão à Praia

Xuxa na Rede Manchete (esse viralizou alguns anos atrás)

Abertura de Jaspion

Cavaleiros do Zodíaco

U.S. Mangá

Greve dos funcionários da Rede Manchete

Andrizy Bento

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