[Catálogo: Especial] Depois de Lúcia

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Chocante e difícil de digerir, o franco-mexicano Depois de Lúcia retrata de maneira seca e direta uma situação revoltante (ainda mais quando temos conhecimento de que casos assim acontecem na vida real e de forma cada vez mais constante, infelizmente). O longa explora a tortura física e psicológica às quais a protagonista é submetida, utilizando isto como mecanismo para envolver o espectador em uma atmosfera sufocante e brutal.

Após a morte da mãe de Alejandra (Tessa Ia) – a Lúcia do título – Roberto (Hernán Mendoza) se muda com a filha para a Cidade do México, a fim de dar um novo rumo para suas vidas tão impactadas pela perda. Porém,  o que poderia representar um novo começo, acaba convertendo-se em um verdadeiro inferno. Alejandra faz novos amigos, mas, em uma determinada noite, fica com um garoto que os filma com o celular enquanto eles se envolvem sexualmente. O vídeo vai parar na internet e a partir daí, ela passa a ser vítima da crueldade de seus pretensos amigos e demais colegas. Omitindo de seu pai a situação, ela aceita passivamente o slut-shaming do qual é alvo e sofre calada todos os abusos.

Impossível não se sentir revoltado ou ficar indiferente ao assistir. O tema é delicado e a maneira como o cineasta Michel Franco filma, com rigor e detalhadamente, abusando de longos planos estáticos, com sequências aflitivas que parecem nunca ter fim, deixa claro que Depois de Lúcia não tem nenhuma intenção de oferecer algum conforto ou resolução do caso ao espectador. O filme se propõe a mostrar a violência que a vítima de bullying sofre, bem como a passividade e a inércia dela diante de seus agressores em um tom quase documental. Tudo aflige o espectador durante este filme. Cada cena faz com que nós tenhamos cada vez mais vontade de fazer algo pela protagonista. O pai da personagem o faz assim que toma conhecimento da situação da filha, levando o caso às últimas consequências.

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Acima de qualquer coisa, Depois de Lúcia não é um filme para se gostar. A denúncia é mais do que válida – nesses tempos em que as vidas de tantas garotas são arruinadas por conta de vídeos de sexo que são postados na internet – e é perfeitamente compreensível a abordagem – seca, direta, brutal – que o diretor escolheu para tratar de um tema tão espinhoso e perturbador que é o bullying. Ninguém acha que um assunto como esse deve ser tratado com lirismo, afinal. Mas o que, particularmente, incomoda neste tipo de abordagem e estilo, é quando a violência é utilizada como mecanismo de choque, de maneira manipuladora, unicamente para provocar indignação e angústia no espectador, com cenas infinitas de tortura física e psicológica.

O diretor de Depois de Lúcia é tão tirano e impositivo com a sua protagonista (insuportavelmente inerte e passiva diante da violência que sofre), quanto com o espectador que não vê saída para o caso e nem mesmo um momento para respirar enquanto vê o filme. E o final, pouco satisfatório, deixa essa impressão amarga de algo feito apenas com a intenção de impactar. É uma pena, pois é um filme necessário, que te faz refletir por horas acerca do abuso que tantas pessoas na mesma situação de Alejandra sofrem. Sim, tinha que ser um filme hardcore, mas não necessariamente fatalista. A denúncia do abuso enfraquece por conta da visão maniqueísta e do enfoque opressivo de Michel Franco.

Andrizy Bento

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