Capitão América: Guerra Civil

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A Marvel continua sua bem-sucedida estratégia de apostar em um universo compartilhado no cinema, projetando nas telonas o desejo de todos os fanboys dos títulos em quadrinhos da editora ao reunir seus maiores ícones em uma mesma saga.

Após um filme repleto de acertos e erros como foi Vingadores: A Era de Ultron, em que o diretor Joss Whedon parecia um refém do padrão Marvel e apostava em excessos ao invés de desenvolver uma trama mais linear e com um escopo definido, não poderia haver uma escolha melhor para comandar o novo longa do estúdio do que os irmãos Joe e Anthony Russo. Eles já haviam assinado um dos filmes mais interessantes e bem resolvidos da Marvel até agora, Capitão América 2: O Soldado Invernal. Os cineastas mostram habilidade espantosa ao trabalhar com diversos plots e personagens em uma trama de pouco mais de duas horas, dando espaço suficiente para cada arco se desenrolar e cada herói brilhar, mas sempre com certa moderação. Assim, eles aliam o fanservice característico das produções do estúdio às cenas de ação bem conduzidas e uma boa narrativa, ainda que não desprovida de problemas.

Nos quadrinhos, a trama de Guerra Civil, que afetou quase todas as revistas da Marvel pelos idos de 2006, tinha contornos políticos mais definidos. O foco era na Lei de Registro de Super-Humanos, algo que entrou em pauta na mesa do Congresso dos Estados Unidos após um desastre ocasionado por um ser aprimorado que vitimou diversos civis. Isso acabou por provocar uma cisão entre os heróis, colocando Capitão América e Homem de Ferro em lados opostos. O ponto de partida da adaptação para o cinema não é muito diferente. Também é uma catástrofe causada acidentalmente por Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen), que inicia o debate sobre a lei de registro de indivíduos superpoderosos – o Tratado de Sokovia. Mas ao longo da narrativa, a guerra entre Steve Rogers (Chris Evans) e Tony Stark (Robert Downey Jr.) parece ser mais fundamentada em motivações pessoais, o que torna complicado escolher um lado.

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Não passa despercebido o prejuízo que os super-heróis são capazes de causar. Desde o primeiro longa dos X-Men, em 2000, por exemplo (com a sequência da estação ferroviária), passando por todos os filmes do Homem-Aranha e, obviamente, as batalhas em Nova York, Washington e Sokovia nos longas dos Vingadores, temos combates colossais que geram impressionantes e memoráveis sequências de ação – mas nem por isso pode-se deixar de lado a devastação que causam, o risco a que as pessoas comuns são expostas e as inúmeras vidas perdidas. Ver esta questão finalmente ser discutida em um filme de herói, atentando para a responsabilidade, direitos e deveres dos superpoderosos não só era algo plausível como inevitável dentro deste universo proposto. A discussão, alguma hora, teria de surgir. E surgiu duas vezes neste ano, com Batman Vs Superman: A Origem da Justiça e agora com Capitão América: Guerra Civil. O problema é que este último acaba tropeçando justamente onde o primeiro também falha: o foco maior no lado pessoal do que nas questões políticas.

Em uma frente estão Homem de Ferro, Viúva Negra (Scarlett Johansson), Máquina de Combate (Don Cheadle), Pantera Negra (Chadwick Boseman), Visão (Paul Bettany) e Homem-Aranha (Tom Holland). Na outra, Capitão América, Bucky Barnes (Sebastian Stan), Falcão (Anthony Mackie), Feiticeira Escarlate, Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e Homem-Formiga (Paul Rudd). São compreensíveis os motivos de cada herói ao escolher o seu lado (sendo algumas justificativas mais sérias do que outras). Mas o problema está naqueles que protagonizam a rivalidade. Em determinados momentos, parece que a preocupação de Steve Rogers não é tanto com o fato de os heróis serem tratados como criminosos – que a lei de registro faça com que eles sejam perseguidos e vistos como uma ameaça para a sociedade – mas com o bem-estar e a redenção de seu amigo Bucky. Bem como Tony Stark, que, após a conversa com a mãe de um jovem morto acidentalmente durante uma das batalhas dos Vingadores, parece movido pelo desejo de reparar esse e outros erros, preocupado com o número de indivíduos aprimorados que surge dia após dia e cujos poderes tanto podem ajudar no salvamento de muitos, como provocar a morte de vários outros, mesmo que não seja esta a intenção. Stark, porém, não deixa de soltar lá pelas tantas que também assinou o tratado na tentativa de que isso pudesse salvar seu casamento com Pepper Potts.

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Claro que esse foco no lado pessoal ajuda a humanizar os heróis e torná-los mais próximos do espectador. E é um acerto do roteiro não pesar a mão na carga emocional como aconteceu em Era de Ultron. Mesmo assim, traz àquela desconcertante indagação: estariam os heróis dispostos a sacrifícios pelo bem coletivo, ainda que isso pudesse prejudicar aspectos de suas próprias vidas pessoais? E a resposta, neste longa, não é assim tão satisfatória.

Falando no lado humano dos heróis, não tem como não destacar um dos principais méritos do longa, que é o de apostar no carisma de seus personagens, na interação entre eles, bem como em ótimos momentos individuais de cada um. Claro que o background estabelecido nos filmes prévios ajuda muito (o que tira o peso de apresentar cada um ao público). Mas a inserção de novos personagens e a química entre aqueles que pouco interagiram anteriormente são acertados. O acréscimo de Pantera Negra, por exemplo, é muito bem-vindo. A construção do personagem é digna de nota e sua entrada no time se justifica. O mesmo com o Homem-Aranha, que aqui está mais para Garoto-Aranha, possivelmente em uma de suas melhores introduções no cinema, sem ser necessário vê-lo novamente como o colegial que é picado por uma aranha radioativa – a história de origem que tanto cansamos de ver. Se há um demérito, é o fato de carregar um pouco a condição de alívio cômico tanto do Aranha quanto do Homem-Formiga, mas eles são bem caracterizados e trazem uma leveza inigualável à trama. E a dinâmica entre os já conhecidos – seja entre Capitão e Homem de Ferro ou Visão e Feiticeira Escarlate – garantem alguns dos melhores e mais sutis momentos do filme.

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Outro ponto alto da produção é a direção de fotografia que faz bom proveito dos espaços em que a narrativa se desenvolve, bem como da coreografia das lutas, valorizadas pelos precisos movimentos de câmera. O espectador tem acesso aos vários ângulos do combate no aeroporto, permitindo aos heróis mostrarem todo o seu potencial e a extensão de seus poderes. Essa destreza na condução das cenas de luta já era notável em Soldado Invernal e aqui, com todos os heróis em confronto, faz da sequência uma das mais grandiosas e vibrantes dos filmes do gênero. Nesse quesito, a cuidadosa montagem e edição de som também ajudam na composição de cenas antológicas.

A ação e o humor são bem pontuados e a obra não se limita à condição de filme-evento pura e simplesmente, graças à eficiente direção dos irmãos Russo e ao roteiro assinado por Christopher Markus e Stephen McFeely. Os ecos dos quadrinhos nas discussões sobre lealdade, responsabilidade, tolerância, vingança e justiça quase alcançam um tom exato de maturidade, mas faltou algo.

Capitão América: Guerra Civil é um longa que se propõe a divertir e empolgar tanto os aficionados em HQs quanto o público em geral. E é bem-sucedido em seu intento, apostando no dinamismo de suas cenas de ação, em bons diálogos, na ótima caracterização de seus personagens, na interação primorosa de seu elenco e na recriação de um confronto épico nas telas. Esta sequência de Capitão América 2: Soldado Invernal é mais do que se pode esperar de um bom entretenimento de fim de semana. Ainda que a discussão sobre a responsabilidade de se possuir um superpoder pareça diluída e até mesmo eclipsada pelos dramas e conflitos pessoais dos próprios heróis, o filme cumpre bem seu papel e se destaca em meio à enxurrada de adaptações de quadrinhos para as telas como um dos grandes blockbusters do ano.

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Publicado originalmente no Mondo Bacana

Andrizy Bento

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6 comentários em “Capitão América: Guerra Civil”

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