Batman Vs Superman: A Origem da Justiça

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O desenho animado Superamigos, produzido pela Hanna-Barbera, me irritava muito na infância. Especialmente por causa desse nome. Como assim, os heróis eram amigos? Antes de assistir ao desenho, eu tinha um headcanon de que Batman e Superman se odiavam ou, no mínimo, não iam com a cara um do outro. Poderia ser uma disputa velada ou mesmo declarada de egos. Não era possível que os heróis mais conhecidos mundialmente – ainda mais fazendo parte do mesmo universo – se gostassem.  Claro que eu não teria problemas em ver uma amizade nascer desse conflito de egos, desde que fosse construída aos poucos. Mas, em um primeiro contato, não conseguia imaginar ambos já se dando bem. No mínimo existiria ali alguma animosidade. Dito isso,  não posso afirmar que Batman Vs Superman: A Origem da Justiça, de Zack Snyder, é um grande filme, nem mesmo é a bomba que andam alardeando por aí. Então, digamos que, pelo menos, o longa realiza um velho sonho de infância.

O filme começa muito bem, de maneira discreta e elegante, os créditos vão surgindo na tela concomitante à cena de abertura. Esta se trata de uma velha conhecida dos fãs de Batman. Mais uma vez assistimos aos pais de Bruce Wayne serem assassinados na saída do teatro. Sim, um clichê presente em diversos títulos em quadrinhos do herói da DC Comics e em todos os filmes e séries baseados no personagem. Contudo, aqui ela ganha uma releitura digna, que vai direto ao ponto, sem rodeios e com um tom até intimista, o que é muito bem-vindo. O problema está no slow motion, tão característico do cinema de Zack Snyder e cansativo como sempre. Se não utilizasse o recurso de maneira tão leviana, a cena seria angustiante e aflitiva na medida certa. Somando o excesso de câmera lenta ao uso desenfreado dos planos detalhe, temos uma amostra do que serão as próximas duas horas e meia de filme.

O longa não é ruim, mas é problemático. E o maior problema reside no fato de que suas forças acabam representando também seu calcanhar de Aquiles ou, para alinhar ao contexto, sua própria Kryptonita em algum momento da trama.

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A representação de ambos os heróis começa sendo um dos pontos fortes. Ben Affleck, quando bem dirigido, consegue entregar uma atuação correta. Nunca soberba, mas pelo menos competente. Seu Bruce Wayne/Batman acaba por evocar uma das melhores versões do personagem nas HQs, o Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Mais velho, com a arrogância que lhe é inata, ele é um homem comum, com muita grana e uma sede de fazer justiça, traumatizado pela morte dos pais (o dia que mudou drasticamente a sua vida para sempre) e que vive em uma cidade repleta dos mais estranhos figurões do crime, que se tratam de maníacos muito criativos na hora de elaborar disfarces e identidades . Aqui a recorrente apatia do ator se converte em frieza, algo que reflete uma das mais acentuadas características do personagem das HQs. Já o Superman (Henry Cavill) é a epítome do bom mocismo, um alienígena com traços humanos e a força de um deus. O longa acerta ao fugir do emblema, do símbolo e apresentar as características humanas que ele possui. Aliás, acerta em termos. A intenção é ótima, a execução é que vacila lá pelas tantas.

É imperativo ter conhecimento de que foi durante a Segunda Guerra Mundial que surgiu o conceito de super-herói nas histórias em quadrinhos norte-americanas. Este era o cenário perfeito para o aparecimento destes seres. Em uma época trágica e de fragilidade, estes personagens serviam como um símbolo de otimismo, mesmo que escapista, para a nação. Naqueles tempos em que o povo precisava de esperança, o Superman invadiu o imaginário popular como o mais poderoso ser que já pisou na Terra, com as cores da bandeira americana, lutando contra nazistas em suas primeiras histórias e cumprindo o papel de defensor da pátria. O Batman sempre foi mais melancólico, tendo surgido um ano após o Superman, como um contraponto ao Azulão. Sombrio, sem superpoderes e com um uniforme todo em tons escuros, Batman era mais um detetive do que um herói clássico.

Há passagens do longa que dialogam com o espectador acerca do que um herói como o Superman simboliza para o público. Com um tom metalinguístico, versa sobre como ele representa aquilo que o ser humano comum aspira ser; que ele é uma projeção dos sonhos do público. A DC Comics sempre trabalhou com deuses, mitos. Mesmo o Batman é um deus entre insetos. A identificação com o público ocorre por alguma característica humana, por meio de suas falhas e fraquezas, de seus ideais e motivações. O Superman mais simboliza o povo americano do que um indivíduo qualquer que poderia ganhar superpoderes e aprender a proteger sua cidade como os heróis da rival Marvel Comics. Daí a popularidade desta última com o leitor e espectador, pois tem um foco maior no herói como indivíduo, trabalha a natureza introspectiva de seus personagens e como cada um lida com seus poderes. Ao colocar o herói no centro, provoca essa identificação imediata com o público, transmitindo a mensagem de que qualquer ser humano comum pode se transformar em super-herói. O Superman é um emblema do coletivo. É mais um símbolo do que um homem. Algo que vem desde a sua origem, como dito acima. O maior herói de todos os tempos surgiu em uma época de vulnerabilidade, quando a nação precisava se sentir intrépida e poderosa.

Clark-Kent-and-Bruce-Wayne

A justificativa para o embate entre os mais icônicos heróis no longa de Snyder é plausível até certo ponto. Fica bem claro que a rivalidade não acontece por motivos inócuos, por conta de competições juvenis para descobrir qual dos dois é o mais heroico e poderoso. O Batman, tão traumatizado pelo seu passado, não enxerga com bons olhos as atitudes do Superman que acaba colocando tantas vidas de civis em risco durante seus salvamentos. O Superman, aparentemente, faz com a melhor das intenções, as consequências é que são devastadoras e inevitáveis.

As discussões políticas e morais acerca da existência de heróis são bastante razoáveis dentro do universo proposto pelo longa. Interessante observar como Superman não é unanimidade. Ele tem groupies e detratores. A sentença manjada utilizada por sua mãe, Martha Kent (Diane Lane), de que o povo sempre temeu o que não entende, é dispensável. Mas é o que vemos na tela. Pessoas que o amam, o respeitam, o odeiam e o temem. Oras, um deus vindo de outro planeta obviamente não seria recebido pela raça humana com meios termos. Sua chegada geraria controvérsias; seria um ama-se ou odeia-se. E tentativas de desacreditá-lo e destruir sua moral perante o público seriam uma constante.

O problema é que, neste filme, o Superman faz por merecer a opinião negativa que Batman e uma considerável parcela do público sustenta a seu respeito. O personagem, em vários momentos, parece agir sem se importar com as consequências, com a sinfonia de destruição que causa (e entendam esse sinfonia como uma homenagem – no sentido irônico da coisa – à edição de som do filme) e, diversas vezes, por motivos puramente egoístas, sendo Lois Lane a sua principal motivação.

luthor

À certa altura do filme, o que era para ser a valorização da família pelos heróis, acaba parecendo mais uma birra mal resolvida. Primeiro porque a manobra de colocar os heróis em lados opostos é conduzida por Lex Luthor (performance equivocada de Jesse Eisenberg, um maníaco que se aproxima mais do Coringa do que do Luthor) e sem razão aparente. Ele é apenas um playboy entediado querendo ver o circo pegar fogo. Segundo porque Bruce soa como um menino mimado e revoltado que, ao invés de ter aprendido a usar seu trauma de infância como um impulso para ir em busca de justiça, está apenas atrás de confrontos que sanem a sua sede de aniquilação e vingança.  Enquanto o Superman, pior ainda, parece o garotinho da mamãe que muito se assemelha àqueles moralistas presentes em nossas redes sociais que adoram vociferar lições de moral e bons costumes em longos textões em seus respectivos murais, mas que em off são os primeiros a dizerem coisas problemáticas. Superman é o bom moço que reprova e condena as ações do Batman, mas age ainda pior do que este último. E a impressão que passa é que, sim, ambos estão apenas lutando por mais protagonismo.

Ótima sacada atentar para o fato de que a mãe de ambos se chama Martha (no caso, a mãe adotiva de Superman), o problema é o apelo melodramático a partir disso. O texto tenta manipular o emocional do espectador de maneira desajeitada, mas falha em seu propósito.

Outro demérito é que as mulheres para Superman são as típicas damsel in distress, só existindo para motivar o herói. A participação de Lois Lane, apesar de contar com uma excelente intérprete (Amy Adams), é prejudicada por conta desse recurso de roteiro. Válida e louvável a ideia de humanizar o herói, mostrando que seus pontos fracos vão além do minério denominado kryptonita. Mas utilizar do arco da ‘donzela em apuros’ não foi a melhor das ideias. Por outro lado, Mulher Maravilha (Gal Gadot), apesar de pouco aproveitada, tem uma presença que só pode ser definida como uma força da natureza, roubando a tela para si em todas as cenas que aparece. E sua primeira aparição trajada com o uniforme da heroína (mesmo que seu figurino esteja mais para Xena do que pra Mulher Maravilha) causa um impacto absoluto e, somado ao poderoso tema musical, evidencia o ar de imponência da personagem, produzindo um arrebatamento no espectador que nem Superman e Batman conseguem causar.

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Falando nisso, a partitura de Hans Zimmer está longe dos anos de brilhantismo do compositor. A trilha sonora não é de todo funcional, ainda que bem pontuada. Mas ele acerta em cheio pelo menos em dois momentos: com o tema da Mulher Maravilha e com o de Lex Luthor. O de Batman só chama a atenção mesmo pelo fato de nos fazer recordar a abertura da famosa série animada do herói, mas não é o suficiente para  despertar alguma emoção além do leve tom nostálgico.

Como bem apontou uma amiga em uma conversa sobre o filme, Batman Vs Superman é o típico cinema de Snyder: pancadaria, explosões, correria e bagunça no clímax. O cineasta tornou-se refém da própria fórmula que criou. O curioso é observar que, nesse filme, o estilo dele é bem trabalhado. Alcança um certo equilíbrio e maturidade não vistos anteriormente em outras obras do diretor. A pirotecnia e o caráter megalômano se justificam na maior parte do tempo, até mesmo pela premissa do encontro dos mais icônicos heróis e a narrativa que exige essa grandiosidade. Mas, ainda assim, seus excessos comprometem algumas boas cenas que tinham tudo para serem antológicas. Há algumas construções de imagens belíssimas (como o atentado ao prédio, no início do filme) e um CGI respeitável, mas seus vícios, descomedimento e abuso no que concerne ao visual estão todos presentes. Estilizado por demais e obcecado em parecer o mais maduro, sombrio e violento dentre os filmes de heróis – para deixar bem claro que diversão vai além do padrão Marvel, colorido e bem-humorado – é nesses aspectos que o cineasta erra a mão e peca.

A montagem tem alguns momentos sóbrios de fluidez até a metade do filme, depois falha em conectar arcos narrativos, correndo contra o tempo para apresentar tudo de uma vez, tornando o easter-egg com a inserção dos membros da Liga da Justiça imemorável (licença para um pouco de veneno: a cena que conecta este filme ao vindouro longa da Liga só seria mais bizarra se o anexo do e-mail fosse uma apresentação em power point). O ritmo é deficiente e a duração longa e excessiva é totalmente despropositada. Era possível resolver e conectar plots e subplots em menos de duas horas de projeção. Engraçado notar como momentos pequenos (o “chá de pêssego da vovó” é um achado) parecem mais profundos e impactantes do que cenas que deveriam evocar um clima épico como a própria luta entre Batman e Superman.

Batman v Superman Wonder Woman

Também há o fato de o longa se estender demais após o clímax. Já é um equívoco enorme não pontuar exatamente qual é clímax – se a luta entre os heróis, ou se a união deles e da Mulher Maravilha contra o Apocalypse (aliás, o dito grande vilão do filme que é quase esquecível). Essa falha no timing é imperdoável, para dizer o mínimo.

Para os fãs dos personagens, o longa é até funcional e tem algumas cenas emblemáticas que irão satisfazê-los, certamente. Também cumpre seu papel como entretenimento de fim de semana, diverte e alia boas cenas de ação com discussões políticas e até filosóficas que atingem em cheio o espectador. Também funciona como adaptação de uma HQ para as telas, passando longe de figurar entre as melhores do gênero, mas tem seus méritos nessa categoria. É um bom filme, sim, mas passa longe, bem longe, de ser perfeito. Assim como nenhum outro da Marvel ou da DC trata-se de uma obra-prima da perfeição. Faltou escopo, a duração poderia ser menor, há momentos que desafiam a lógica e mandam a coerência para o espaço e passagens que subvertem o cânone das HQs (aqui não se trata de purismo, mas não tem como ignorar o quanto as caracterizações fogem de sua essência dos quadrinhos em determinados momentos), mas não é um desastre como um todo. Esqueça o massacre que sofreu da crítica internacional, releve os excessos e maneirismos de Snyder, ignore o histrionismo de Luthor. Foque na química entre a tríade de heróis, na interessante representação visual dos mesmos, e curta um filme bem legal.

Andrizy Bento

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