Oscar 2016: Indicados a Melhor Filme – Parte 1

Falta uma semana para o Oscar, a premiação máxima do cinema americano. No próximo domingo, dia 28, saberemos qual produção leva a estatueta de melhor filme. Por enquanto a gente especula e, abaixo, estão algumas palavrinhas que escrevi acerca de quatro dos candidatos ao prêmio mais importante da noite, Spotlight: Segredos Revelados, Mad Max: Estrada da Fúria, Brooklyn e A Grande Aposta.

spotlight

Spotlight: Segredos Revelados (Thomas McCarthy)
★★★★

Baseado em fatos, Spotlight retrata a investigação de uma equipe de jornalistas, posteriormente vencedora do Prêmio Pulitzer, de diversos casos de pedofilia na Igreja Católica. Situado no ano de 2001 – época também dos atentados ao World Trade Center que quase acabaram por ofuscar a reportagem da equipe – o longa do diretor Thomas McCarthy é inteligente ao utilizar o espinhoso tema para versar sobre o jornalismo investigativo, seu caráter de denúncia e prestação de serviço, soando quase como um ensaio que esmiúça a essência e a relevância da profissão. Para quem é da área e conhece o ambiente de uma redação, se sente familiarizado. Para quem não é, mas gosta do assunto, é uma ótima experiência também. E para quem não tem interesse, pode achar um tanto quanto frio demais por assumir um tom documental. Mas é exatamente essa frieza e distância que fazem o filme funcionar.  Bem ao estilo de dramas jornalísticos investigativos das antigas como há muito não se via – e aqui convém citar Todos os Homens do Presidente, uma vez que a comparação é inevitável – a direção e a cinematografia são extremamente discretas. Boas atuações de Mark Ruffalo, Michael Keaton e Rachel McAdams. Os dois primeiros protagonizam um dos melhores momentos do filme: O confronto entre um poderoso e exaltado Ruffalo contra um comedido e racional Keaton, que deixa claro o gás e entusiasmo acalorado do início de carreira, da sede de querer fazer justiça, em contraponto com a maturidade profissional daquele jornalista que sabe que deve galgar degrau por degrau de maneira cuidadosa, até chegar à inexorável verdade que não poderá ser contestada. Algumas relações poderiam ser mais bem exploradas, mas faz sentido não haver tanta profundidade nas conexões entre os personagens, uma vez que a proposta do longa é relatar um caso sem se comprometer emocionalmente, sem sensacionalismos ou demagogia. Portanto, optar por uma narrativa convencional, que explora o dia a dia de um ambiente de redação, e uma equipe dedicada em ir a fundo em uma reportagem é um dos grandes acertos e o que faz deste um dos melhores títulos indicados ao Oscar de melhor filme deste ano. Destaque para a sequência em que um personagem que foi vítima de abusos de padres na infância relata sua experiência à repórter interpretada por McAdams. É claro que há uma igreja e um parque de diversões como plano de fundo. O que poderia ser um clichê visual converte-se rapidamente em um acaso cruel e macabro que apenas parece reabrir uma ferida do passado quando a vítima em si se dá conta da coincidência do cenário. Spotlight é uma verdadeira aula de jornalismo, a denúncia é mais do que válida e nos faz ponderar ao fim da projeção que, infelizmente, há mais casos envolvendo pedofilia e religião do que gostaríamos de ter notícia. Só pela urgência e relevância do assunto, e o modo discreto e cuidadoso com que é retratado na tela, já merecia o prêmio.

mad max

Mad Max: Estrada da Fúria (George Miller)
★★★★½

George Miller resgatou o universo inventivo proposto por ele no longínquo ano de 1979 – e que fez um retumbante sucesso, com Mel Gibson alçado ao patamar de estrela na época – e presenteou o público com o melhor filme da série Mad Max até agora. O título não poderia ser mais preciso. É em uma estrada de fúria que toda a narrativa se desenrola. É em uma jornada por alguma esperança, em meio ao caos, guerra e carnificina, que conhecemos os marcantes personagens. Trata-se um road movie brutal, repleto de metáforas inteligentes, um visual fantástico, montagem acelerada e batalhas colossais com direito a música ao vivo (?) a cargo de um explosivo guitarrista. A belíssima direção de fotografia, a composição cromática e todo o desenho de produção são notáveis ao apresentar ao espectador uma terra árida, de condições inóspitas, totalmente crível. Mad Max possui algumas das cenas mais bonitas do ano, destaque para a arrebatadora tempestade de areia e as perseguições – inicial e final – com movimentos de câmera acertados e efeitos especiais muito bem empregados. Com personagens bizarros, uma narrativa bem pop e autoral, ação praticamente ininterrupta e doses cavalares de violência estilizada, Mad Max é um soco no estômago que não se limita (ou não se contenta) em ser apenas um blockbuster feito para divertir plateias compostas de saudosistas dos filmes originais da franquia e uma nova geração de cinéfilos – curiosos em conhecer Max ou que estão tendo seu primeiro contato com a história. O filme é uma fantasia perturbadora com toques de realismo, pois versa a respeito da miséria, racionamento, escravidão, exploração sexual, abuso de poder, opressão, desigualdade social e ainda reserva um excelente espaço para discutir a força feminina. E é bem-sucedido na abordagem destes temas, bem como em todos os seus símbolos e alegorias. Tom Hardy é competente, mas Charlize Theron é a verdadeira ladra de cenas com sua Furiosa. Entretenimento inteligente e cheio de personalidade, estilo e irreverência.

brooklyn

Brooklyn (John Crowley)
★★★★

Brooklyn, do cineasta irlandês John Crowley, é um filme sobre escolhas. Provavelmente qualquer um que já passou pela experiência de sair de casa, deixar a família para trás e correr em busca dos próprios sonhos e realizações, identifica-se de imediato, ainda que o contexto histórico não seja o mesmo. Mas este serve apenas como plano de fundo de uma narrativa que divaga sobre o emocional e o racional, o desejo e o dever, a importância de se olhar para o futuro sem desapegar totalmente do passado. Porém, uma vez que você coloca o pé para fora de casa, há todo um mundo novo para ser descoberto. Nossas raízes são importantes, mas descobrir e desbravar o desconhecido é um tentação a qual devemos nos render, não fugir. É complicado falar sobre um filme que você sabe que está longe de ser uma obra-prima, mas que se transformou rapidamente em um filme afetivo. Que, embora não seja desprovido de deméritos, seja perfeito ao seu olhar exatamente por mexer com o seu emocional. Deixar o pessoal de lado e ser mais analítica é extremamente difícil. Pensei em várias palavras para defini-lo, mas acho que irresistível e apaixonante são boas o suficiente. É o tipo de filme que você assiste com um sorriso terno no rosto na maior parte do tempo e com algumas lágrimas inevitáveis em certas passagens. A impressionante Saoirse Ronan interpreta uma jovem irlandesa que, em plena década de 1950, tem a oportunidade de se mudar de sua terra natal para os Estados Unidos. Morando no Brooklyn, em uma pensionato para garotas, ela tenta se adaptar e realizar seus sonhos. A princípio se sente deslocada e imersa em uma profunda nostalgia, com saudade de casa e da família, mas conforme o tempo avança, vai se ajustando melhor do que esperava, conhece um bombeiro italiano por quem se apaixona e tem a impressão de que definitivamente encontrou seu lugar no mundo. Porém, uma tragédia em sua família a obriga a voltar para casa e a faz reavaliar o lugar onde nasceu e passou boa parte de sua juventude, olhando-o sob uma nova perspectiva, o que a deixa dividida entre as duas terras e dois amores. A fotografia é de uma elegância ímpar, conferindo um lirismo imprescindível ao longa. A direção de arte, a ambientação e os figurinos são de encher os olhos. Caracterização perfeita e ótimo trabalho de reconstituição de época. A trilha sonora, a cargo de Michael Brooke, é outro item que se destaca – simples, mas encantadora. E é imperativo falar sobre a interpretação de Saoirse Ronan. A cada filme, impressiona mais e mostra que é uma das grandes atrizes dessa geração. A garota é um fenômeno. Sua evolução em cena é surpreendente; começa ingênua e doce e, aos poucos, vai se tornando madura e sofisticada em duas horas de projeção. É aquele tipo de atriz que, assim como Marion Cotillard, transmite toda e qualquer emoção através do olhar, não precisando nem mesmo de falas para envolver e cativar o espectador. E, além do talento, tem uma beleza clássica que a tornou um acerto de cast. Poucas funcionariam tão bem no papel como ela. A riqueza dos diálogos e a delicadeza da narrativa fazem de Brooklyn, seguramente, o filme mais belo da temporada de premiações, que não precisa recorrer a artifícios e trucagens para impressionar. É nessa simplicidade que reside seu encanto. Apesar do estilo de romance clássico, não é um filme “velho”, antiquado, não aposta em um roteiro com ideias desgastadas. E impossível não vibrar com a escolha da personagem de Ronan no final, coroando sua trajetória de amadurecimento. Ela tomando as próprias decisões, olhando para frente, para o futuro, é algo a se admirar em um mulher da década de 1950 e que ainda é capaz de servir de inspiração para tantas atualmente.

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A Grande Aposta (Adam McKay)
★★★½

O colapso da economia mundial é o mote do audacioso, porém, bem executado filme de Adam McKay. O longa gira em torno de quatro ambiciosos e visionários gestores que perceberam de antemão algo que os bancos e o governo dos Estados Unidos não viram ou se recusaram a ver: a crise econômica. Desse modo, um arrogante e convicto corretor (Ryan Gosling), o antissocial dono de uma empresa de médio porte (Christian Bale), um guru de Wall Street (Brad Pitt) que passa a auxiliar dois iniciantes na Bolsa de Valores, e o dono de uma corretora que atravessa uma conflituosa fase no âmbito pessoal (Steve Carrell) decidem investir, arriscar e apostar alto, tendo em mente que o país está à beira de quebrar, sendo o colapso inevitável. McKay arranjou uma forma mais do que apropriada e eficiente de apresentar essa dinâmica na tela. O ritmo é frenético; a câmera, trepidante; a montagem, totalmente pautada pela estética videoclíptica. Todos esses aspectos são um achado e mais do que condizentes com a proposta da narrativa. Além de abusar dos movimentos bruscos de câmera, completam o conjunto a trilha sonora nervosa e abrupta e a terminologia familiar apenas para economistas É de dar um nó na cabeça do espectador. Parece que a intenção é soar confuso mesmo. Dá para entender bem o filme, mas tem que ter boa vontade. E aqui convém citar o principal mérito dos atores que é a naturalidade com que seus personagens utilizam jargões de mercado financeiro, o dito “economês”, de uma maneira tão crível, que soa como se estivessem dialogando acerca do tempo ou de cultura pop. O elenco e a premissa são dignos de nota, mas a montagem rapidinha somada ao economês tornam tudo bastante complexo e a resolução para isso, dispensável – para o espectador não se perder, pessoas influentes em seus respectivos meios, porém aleatórias na narrativa (do renomado chef de cozinha Anthony Bourdain à cantora pop Selena Gomez), surgem na tela, interrompendo o desenrolar da trama, para dar exemplos de modo a explanar os jargões, falando diretamente com a câmera, isto é, com o espectador. O que quebra um pouco o ritmo, desacelerando o longa de maneira desnecessária, além de cometer um apelo ao didatismo, tirando boa parte da força do filme.  A Grande Aposta acerta em vários pontos e erra em tantos outros. Acerta, por exemplo, na vibe documental, no tom debochado e no uso da trilha sonora. Erra no excesso de explicações. A intenção é das melhores, porém, parece subestimar a inteligência do público (e, nesse caso, é até questionável o uso dessa sentença, uma vez que economês não é o forte da maioria do público cinéfilo comum). Contudo, diante do acuro dos planos, a evolução da narrativa, o ritmo caótico e ágil com que é conduzida a trama e a desenvoltura do elenco, não há como nivelá-lo por baixo e não dizer que se trata de um grande filme. Sim, A Grande Aposta é um ótimo longa. Esquisito, arriscado mas bem realizado e genial. Sem dúvida, merece ser visto e revisto – e uma revisão certamente se faz necessária.

Andrizy Bento

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