Star Wars: O Despertar da Força

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Novo exemplar da franquia Star Wars agrada antigos fãs e conquista uma nova legião de admiradores.

Creio ser dispensável divagar sobre a importância de Star Wars para a cultura pop. O impacto e a influência que a obra de George Lucas exerceu no universo geek são de conhecimento público. Basta dizer que, em 1977, quando o primeiro filme da saga entrou em cartaz nos cinemas, tornou-se um ícone. Ao lado de Tubarão (1975) de Steven Spielberg, Star Wars foi considerado o primeiro blockbuster contem-porâneo. A space opera de Lucas é um dos maiores exemplos de franquia midiática bem-sucedida, sendo composta de sete filmes (até o momento) e considerada a mais rentável da história, expan-dindo seu universo para além do cinema – na literatura, histórias em quadrinhos, animações para a televisão, sem falar dos produtos licenciados (como action figures, acessórios, etc) e tornando-se possivelmente a obra mais nerd de que já se ouviu falar. 

Depois de uma trilogia de sucesso que compreende os filmes Uma Nova Esperança (1977), O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983), George Lucas decidiu reviver a estrela de maior grandeza de sua carreira como cineasta e produtor e lançou, dezesseis anos depois do último episódio da série, uma nova trilogia que funcionava como prequel e contava a origem do mais famoso vilão do cinema: Darth Vader. É claro que os fãs, na época, ficaram em polvorosa, ansiosos para ter acesso a todo o background do ex-Jedi que fora seduzido pelo Lado Sombrio da Força quando jovem. Infelizmente, a decepção foi tamanha.

A segunda trilogia – iniciada no final da década de 1990 e composta pelos filmes A Ameça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002), A Vingança dos Sith (2005) – ensinou a nós e especialmente a Lucas, três valiosas lições: 1) era necessário escalar um ator carismático para viver um personagem tão complexo e ambíguo como Anakin Skywalker/Darth Vader e não um aprendiz de Backstreet Boy, que me desculpem os fãs(?) de Hayden Christensen; 2) Star Wars é uma ópera espacial e não um dramalhão mexicano como O Ataque dos Clones sugere; 3)  Por último, mas não menos importante: George Lucas pode ser um ótimo argumentista e ter seus méritos como roteirista, mas não é necessariamente um bom diretor. Especialmente no que diz respeito à direção de atores.  Sua obra fica melhor nas mãos de outros cineastas, já que seu desinteresse e apatia são visíveis em cada frame da segunda trilogia. Para completar, é imperativo que se conheça bem sua própria criação antes de tomar uma decisão tão arriscada como a de se aventurar novamente por aquele universo já consagrado e fazer mais filmes. Em diversos momentos, Lucas não respeitou o cânone da própria obra, contradizendo a trilogia clássica em vários aspectos.

Star Wars Kylo Ren

Mas ele realmente aprendeu com os próprios e, diga-se de passagem, colossais erros. Assim, Lucas cedeu a cadeira de diretor para J. J. Abrams – o homem por trás do fenômeno televisivo Lost, e que adaptou recentemente a consagrada série Star Trek para a telona em ótimos e divertidos filmes – dando a ele a responsabilidade  de ressuscitar esse gigante da cultura pop nas telonas. Abrams entende do riscado e entrega ao público um filme de caráter nostálgico, um tributo delicioso aos fãs da antiga trilogia, e capaz de conquistar uma nova geração de adoradores, lançando luz sobre elementos até então inexplorados, enriquecendo a mitologia nas telas e ditando um novo e interessante rumo para a franquia, com potencial de, futuramente, se desenvolver algo tão grandioso quanto O Império Contra-Ataca.

Star Wars: O Despertar da Força se passa décadas após a queda do Império e de Darth Vader. Neste cenário, surge uma nova ameaça, A Primeira Ordem,  que tem Kylo Ren (Adam Driver), o General Hux (Domhnall Gleeson) e o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) como seus principais representantes e cuja ambição é derrotar a República. O filme já começa muito bem com a caçada a Poe Dameron (Oscar Isaac), um piloto que integra a Resistência. Por mais que se empenhe na tarefa de escapar, seus esforços são em vão e ele acaba capturado. Antes, porém, consegue esconder um mapa contendo a localização do lendário Luke Skywalker (Mark Hamill) no pequeno robô BB-8. Ao fugir (literalmente rolar) pelo inóspito deserto de Jakku (planeta que faz sua primeira aparição neste filme), o robôzinho cruza com a simples e jovem catadora de destroços Rey (Daisy Ridley) em seu caminho, a quem decide pedir ajuda.

Poe, agora nas mãos de Kylo Ren e sob o domínio da Primeira Ordem, acaba contando com a ajuda de FN-2187 (John Boyega), a quem mais tarde ele renomeia de Finn, para escapar. Finn é um stormtrooper que quer abandonar essa vida por não concordar com os métodos e a ideologia da Primeira Ordem. A fuga dos dois personagens acontece paralelamente à trama de Rey e BB-8 e, desse modo, o cenário global de Star Wars: O Despertar da Força vai sendo delineado de modo eficiente, estabelecendo, assim, uma base sólida para a vindoura trama.

Escrever sobre o novo Star Wars é um exercício complicado. É extremamente difícil produzir uma resenha analítica, quando a emoção ameaça aflorar em cada linha. Para os saudosistas, é impossível conter as lágrimas ao rever os clássicos personagens da antiga geração. E a nova geração é formada por um punhado de personagens igualmente carismáticos e bem construídos. Por um lado temos Leia Organa (Carrie Fisher), Han Solo (Harrison Ford), Luke Skywalker, Chewbacca (Peter Mayhew) e os droids C-3PO (Anthony Daniels) e R2-D2 (Kenny Baker*) que não precisam de muito para conquistar um sorriso dos fãs, mas que continuam mostrando competência em seus respectivos papéis, mesmo que alguns não tenham tanto tempo de tela quanto gostaríamos. De outro, temos a ótima protagonista e potencial Jedi, Rey; o piloto Poe; o traidor da Primeira Ordem, Finn; o adorável droide BB-8; e o novo representante do Lado Sombrio, Kylo Ren, tão cativantes que basta alguns minutos na tela para que os espectadores já se importem, sintam carinho demasiado por eles e, claro, fiquem curiosos para saber como suas respectivas jornadas se desenrolarão neste e nos filmes subsequentes.

Han Chewie

As batalhas colossais, orquestradas magistralmente, são puro deleite visual. Ponto para o desenho de produção e a direção de fotografia que, aliadas, compõem sequências antológicas. Não tem como deixar de mencionar o embate entre a Rey e Kylo no clímax do filme, vibrante e capaz de deixar qualquer fã tenso na poltrona.

Eu já havia dito que Abrams era a melhor escolha para conduzir um novo longa de Star Wars alguns anos atrás, no twitter. Afinal ele é, talvez, o melhor cineasta da atualidade a trabalhar com material de entretenimento. Ele respeita a mitologia e os personagens, reconhece a importância que a obra tem para os fãs, dá uma vibe nostálgica deliciosa ao longa, ao mesmo tempo em que moderniza alguns aspectos da narrativa com sabedoria. Acima de tudo, ele é um fã, mas que não se deixa levar pela paixão exacerbada típica dos aficionados. É um entusiasta comedido (por mais conflitantes que essas palavras soem), pensa cinemão com estilo e energia, mas jamais soa pretensioso.

A direção segura de Abrams somada ao bom roteiro de Lawrence Kasdan (responsável também pelo texto do excelente O Império Contra-Ataca), garantem um equilíbrio preciso entre os elementos narrativos, acertando tanto no timing cômico, quanto dramático. Sabendo dosar, na medida certa, as sequências em que a ação e a fantasia dominam a tela com as cenas mais intimistas em que os sentimentos e a conexão entre os personagens dão o tom. A amizade entre as cativantes figuras que protagonizam o novo filme (seja Rey & Finn ou Finn & Poe) é algo bem construído. Até o potencial romance é trabalhado de maneira pontual, sem recorrer a chavões narrativos ou ao excesso de melodrama. Este novo longa de Star Wars não precisa de muito para emocionar. Basta a primeira aparição de Han Solo dizendo a Chewbacca: “Chewie, estamos em casa”; um abraço entre Leia e Han;  Finn descobrindo que Poe está vivo, bem e pilotando melhor do que nunca; ou qualquer cena que envolve o robôzinho BB-8 (que é o cúmulo da fofura) para despertar os mais variados sentimentos no espectador.

Ainda há espaço de sobra para easter eggsfan service (sempre bem justificado) e para divagar sobre as teorias, como: quem é a família de Rey? Ela é filha de Luke? Ou seria filha de Han e Leia, portanto, irmã de Kylo? Ou talvez estas pistas estejam lá para ludibriar os fãs e a origem de Rey seja muito mais misteriosa, complexa e intrigante do que supomos? Onde foi parar Luke? Ainda no campo da nostalgia: Rey pilotando a Millenium Falcon (a espaçonave clássica da primeira trilogia, que era pilotada por Han Solo e co-pilotada por Chewbacca) é capaz de levar os fãs ao delírio.

Com uma história sólida e envolvente, personagens – antigos e novos – extremamente carismáticos, batalhas históricas, um visual soberbo e um toque acertado de saudosismo, O Despertar da Força disputa o acirrado título de melhor blockbuster do ano com o magistral Mad Max: Estrada da Fúria de George Miller. Mas esqueçam as comparações com outros títulos arrasa-quarteirões do ano e mesmo com os próprios filmes prévios da franquia. O novo exemplar da série Star Wars é uma deliciosa ficção científica, cujo roteiro justifica de maneira inteligente o retorno a esse universo, fugindo da categoria de caça-níquel e dando início a uma nova e grandiosa trama que promete satisfazer veteranos e contagiar os novatos nessa nova incursão.

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Obrigada, J. J. Abrams! O Despertar da Força é tudo o que os fãs novos e antigos de Star Wars esperavam de um novo filme. Não apenas correspondeu às expectativas, como superou todas elas.

*Anthony Daniels, o intérprete de C-3PO disse em uma entrevista que Kenny Baker, que deu vida ao R2-D2, foi creditado, porém, não esteve realmente no set durante as filmagens. Possivelmente seu nome só aparece nos créditos por questão de respeito ou como um amuleto de sorte. Lembrando que Daniels e Baker, apesar de representarem uma das duplas mais queridas do cinema, não se dão bem na vida real.

Andrizy Bento

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4 opiniões sobre “Star Wars: O Despertar da Força”

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