Jogos Vorazes: A Esperança – O Final

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O maior mérito da trilogia literária Jogos Vorazes de Suzanne Collins é que a linguagem é bem direta e o ritmo, envolvente. Não há espaço para floreios, divagações eloquentes da protagonista e mesmo contando com um grande número de personagens, jamais se prende a subplots dispensáveis. Todos os personagens têm seu momento, claro. Mas sempre dentro da proposta da narrativa, movidos pela luta, que é uma só, e que os une como parte de um mesmo todo, por mais divergentes que sejam suas motivações pessoais. O que infelizmente faltou na adaptação cinematográfica da saga distópica – e que é mais visível neste último filme – é esse senso de propósito, esse ritmo ditado pela tensão constante, a dispensa das pausas para respiro exatamente para não comprometer a história.

Há um escopo e sabemos disso. Mas faltou usar esse objetivo final como a força que impulsiona os personagens. Analisar a saga como um todo nas telas, mostra o quão disforme é sua narrativa, com uma introdução até competente, uma sequência que atingia todo o seu potencial, um início de fim arrastado, mas com bons momentos de tensão e um último capítulo descuidado, com uma montagem capciosa que busca esconder suas falhas narrativas, mas sem sucesso.

O filme não é ruim. Muito longe disso. Como entretenimento, continua acima da média, especialmente se comparado a tantos outros blockbusters rasteiros que têm dominado as telas na última década. Ele só não está à altura do excelente segundo episódio da franquia, o Em Chamas, e fica aquém até mesmo de A Esperança – Parte 1 que já se tratava de um filme problemático.

Em termos de fidelidade ao material de origem, os fãs não têm do que reclamar. Raramente vemos um filme tão fiel a cada linha do livro. E é aí que A Esperança – O Final  peca. Literatura e cinema são duas artes e linguagens bastante distintas. O que funciona nos livros, muitas vezes não funciona nos filmes e vice-versa. E a explicação é óbvia. O cinema trabalha com imagens e texto verbal. A literatura só usa deste último recurso. A partir de longas descrições, o leitor contorna o universo proposto pelo autor em sua imaginação ao ler um livro. O cinema não precisa disso, os recursos audiovisuais permitem que o universo outrora apenas delineado na imaginação dos leitores se torne concreto, físico. A narrativa cinematográfica, portanto, deve apenas propiciar ao espectador a sensação de que aquilo que vemos na tela é real, de forma que possamos mergulhar na história. Por isso eu acho a frase “o livro é melhor do que o filme” falaciosa. Não tem como comparar duas mídias distintas. Você pode acreditar que a história é mais bem contada em um meio ou em outro. Mas dizer que é “melhor” é um equívoco dos grandes.

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A trama deste último capítulo começa do ponto em que o filme anterior terminou. De modo que é necessário ter alguns dos acontecimentos mais importantes de A Esperança – Parte 1 ainda frescos na memória para que se possa compreender inteiramente o derradeiro capítulo, como por exemplo o fato de que Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) se tornou o Tordo, o símbolo da resistência formada por cidadãos do Distrito 13 e liderada pela Presidente Alma Coin (Julianne Moore); que Peeta Melark (Josh Hutcherson), que passou o filme prévio sob o domínio da Capital, foi vítima de um telessequestro e, agora, sempre que vê ou pensa em Katniss, só consegue associá-la a sofrimento e tem o desejo de matá-la; e que a guerra contra o tirano Presidente Snow (Donald Sutherland) ainda parece longe de um ponto final.

Katniss continua estrelando as vinhetas da rebelião que invadem a programação televisiva da Capital, chamando o oprimido povo de Panem para se unir a ela na luta, e parte junto de seus amigos mais próximos e de uma unidade do Distrito 13 em uma missão suicida, cujo objetivo é libertar os cidadãos de Panem e assassinar o Presidente Snow. Em vários momentos, tem-se a sensação de que a guerra se tornou pessoal; que Snow e Katniss estão em uma competição para ver quem morre primeiro pelas mãos (ou subordinados, no caso do presidente) do outro. O resultado é um filme ainda mais arrastado do que o anterior.

O longa vacilar na fotografia e na montagem em momentos cruciais justamente no último episódio, como na cena que se situa nos túneis subterrâneos da cidade, é quase imperdoável. Uma sequência longa demais, aflitiva na medida errada e com uma direção equivocada, em que mal conseguimos distinguir os personagens e ter acesso a todos os seus movimentos durante o violento confronto  contra os bestantes.

Cenas que necessitavam da catarse são de pouco impacto para o espectador, como as mortes de alguns dos personagens mais importantes dos episódios anteriores. Quase não sentimos essas perdas. O espectador fica em um estado de apatia e estupor semelhante ao de Katniss, como se tentasse puxar pela memória qual seria mesmo a reação que deveríamos ter diante das fatalidades ou, ainda pior, qual seria a real importância deste ou daquele personagem para a trama em um futuro quando a guerra acabasse. As mortes, ao invés de produzirem choque, nos dão uma desconcertante sensação de anestesia, como se já esperássemos por isso. Bem, sabemos que, em uma guerra, há baixas tanto de um lado quanto de outro. Mas em se tratando de uma franquia com personagens tão carismáticos, era de se esperar que nos importássemos mais com suas vidas. Daí a necessidade de um ritmo mais dinâmico e de um crescendo dramático apropriado que culminasse no clímax, algo praticamente inexistente neste filme e tão bem trabalhado no Em Chamas.

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Mas há uma justificativa para o excesso de lenga-lenga e para a ação mal pontuada: dividir um livro em dois filmes, algo que se tornou uma tendência em Hollywood desde Harry Potter no que concerne às adaptações de franquias literárias para o cinema, diluiu o impacto. Infelizmente, trata-se de uma estratégia com fins puramente comerciais, para que o estúdio fature mais em bilheteria e merchandising. Os produtores ganham muito com isso, mas quem perde é o espectador. E isso se tornou ainda mais explícito com Jogos Vorazes, uma vez que o livro que encerra a saga de Katniss Everdeen é relativamente curto e objetivo também, que poderia facilmente render um único e bom filme, mais direto e com um desígnio bem definido.

Como metáfora política e social, continua funcional e bastante conveniente. A rebelião é retratada de maneira brilhante e os atores continuam mostrando uma dinâmica e químicas surpreendentes. O problema é que faltou desenvolver melhor alguns personagens, especialmente aqueles que se mostram como figuras fundamentais no desfecho e que mereciam mais tempo de tela. Como exemplo, posso citar a Comandante Paylor (Patina Miller) que fica com uma das maiores responsabilidades ao final da trama e tem seu potencial desperdiçado, pois quase não tem função no desenrolar do enredo.

A ambiguidade de personagens como Peeta, Gale Hawthorne (Liam Hemsworth) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman); a representatividade e o confronto ideológico de outros, como é o caso de Snow e Coin, são abordados de maneira inteligente, mas é algo originário dos livros. Portanto, como obra cinematográfica, esse último episódio não oferece nada de realmente genuíno, nenhuma qualidade própria a não ser mesmo pela atuação do bom elenco.

A composição cromática, contudo, é digna de menção. Como citado no texto sobre o filme anterior, a Capital foi perdendo o seu brilho, seus tons coloridos, seus matizes alegres e festivos, se tornando mais cinza e sombria. O clima de guerra e a atmosfera caótica são convincentes. Não há do que reclamar nesse quesito.

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E a escolha da Katniss no terceiro ato, “a flecha que acaba com todas as guerras”, surpreende quem não leu o livro, mas faltou mais impacto emocional exatamente pelos motivos supracitados neste texto; o ritmo lento comprometeu o todo. O final parece desprovido de propósito e jogado na tela à guisa de um epílogo. Um desfecho quase feliz que o roteiro equivocadamente julga necessário ao espectador após todo o sofrimento infligido à Katniss e Peeta durante a série.

A Esperança – O Final pode não ser um desastre completo como muitos afirmam, mas é, em sua maior parte, frustrante. No entanto, é respeitável o fato de valorizar tanto a mensagem e as analogias políticas, históricas e culturais em sua narrativa. E, como eu sempre digo, não tem como nivelar por baixo uma franquia de filmes dedicada ao grande público, especialmente os adolescentes, mas preocupada em retratar na tela temas tão espinhosos quanto relevantes e inerentes à nossa realidade, além de representar uma crítica social – ainda que revestida de fantasia distópica. Só por isso, o filme ganha uns pontinhos a mais.

Confira o nosso Especial Jogos Vorazes.

Andrizy Bento

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2 opiniões sobre “Jogos Vorazes: A Esperança – O Final”

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