Personalidade: Super Heróis Marvel

Como é bom esse negócio de ser fã. Só fã entende o que é se emocionar com alguns rabiscos coloridos e balões de fala na página de uma revista. O que é vibrar no cinema ao ver uma adaptação bem feita de uma história em quadrinhos. O que é agarrar o braço do indivíduo da poltrona ao lado e dizer: “Eu esperei tanto para ver essa cena”.

Há alguns anos, me disseram que, um dia, num futuro não muito distante, eu deixaria essas minhas paixões de infância, os super-heróis, no passado. Que eu deveria largar minhas “revistinhas” (tenho profunda aversão a quem chama de “revistinhas” as minhas HQs), pois, quando eu crescesse, a realidade com que eu me depararia, faria com que tudo isso perdesse o encanto. Essas profecias tolas me incomodavam. Não porque eu realmente acreditasse nisso – a verdade é que nunca conseguiram me convencer totalmente – mas, sim, porque estavam acusando-as de coisas de criança. Espere aí! São minhas paixões de infância mas isso não significa que sejam realmente infantis.

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Narrativas que abordam temas como preconceito, segregação social, alcoolismo, guerras e perdas não podem, nem de longe, ser consideradas infantis. É claro que muitas das mensagens e alegorias presentes nas histórias em quadrinhos de super-heróis só se tornaram mais compreensíveis à medida que fui crescendo. Mas aquelas páginas, hoje amareladas, me comunicaram ensinamentos preciosos no tocante ao respeito, igualdade, valores…

Meus primeiros contatos com os icônicos super-heróis ianques foram verdadeiros desastres. Tinham tudo para me fazer desgostar de quadrinhos. Quando eu era criança, o SBT exibia o famoso seriado Batman & Robin, produzido na década de 1960, que era a própria definição de kitsch. O filme do Capitão América, a que tive o desprazer de ver pela televisão, era um verdadeiro fiasco. A série Lois & Clark, baseada nas aventuras do Superman, não merece nem uma linha de comentários mais aprofundados. E a primeira vez em que vi o desenho dos X-Men, na extinta TV Colosso, na Rede Globo, eu simplesmente não gostei.

Mas dois Super-Homens foram responsáveis pela minha paixão por quadrinhos de super-heróis: um da ficção e outro da vida real. Superman, graças ao filme dirigido por Richard Donner em meados da década de 1970; e meu pai que era um fã de super-heróis e me entretinha falando sobre as histórias em quadrinhos que lia na infância. Eu passei a sonhar em possuir a visão de raio-X de Superman e acreditava que me bastava uma capa vermelha para poder voar. Ao abrir a minha primeira revista em quadrinhos, passei a ter acesso a um universo de capas, máscaras, símbolos e bordões que permearam boa parte da minha juventude (falo como se fosse muito velha…) e eu me tornei uma aficionada pela nona arte.

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Muito embora minha paixão por quadrinhos tenha começado graças ao meu pai – um DCnauta, fã dos super-heróis clássicos da editora DC Comics como Batman, The Flash, Mulher-Maravilha e, claro, Superman – eu acabei me tornando uma Marvete, fã dos personagens da rival Marvel Comics, editora de heróis como Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, Demolidor e, os meus favoritos, X-Men e Homem de Ferro.

Como eu disse anteriormente, com os X-Men não foi amor à primeira vista. No começo, o desenho animado dos heróis mutantes, exibido no início da década de 1990, não despertou meu interesse. Contudo, com o passar do tempo, não só aprendi a gostar como também me tornei uma grande fã dos X-Men, com direito a uma valiosa coleção de títulos mutantes; edições duplas dos DVDs de todos os filmes da série; tagarelar infinito – e insuportável para quem não é muito fã – a respeito dos personagens e roteiros; e olhos cheios de lágrimas ao final das sessões dos filmes X-Men 2 de 2003 e X-Men: Dias de um Futuro Esquecido de 2014.

Os heróis mutantes foram os responsáveis pela minha fascinação pela Marvel Comics. As páginas das HQs de X-Men me apresentaram outros heróis do Universo Marvel e, assim, comecei a consumir títulos como Quarteto-Fantástico, Homem de Ferro, Hulk, Os Vingadores dentre outros. Todos eles criações do genial Stan Lee. Graças a ele a Marvel é o que é hoje. Não é a toa que a editora é chamada de Casa das Idéias.

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Um ser desprovido de garras retráteis, rajadas óticas, asas, telepatia, mas que, ao mesmo tempo, possui todos esses poderes. O maior dom de Stan Lee sempre foi sua imaginação fértil. Ele acabou se tornando um super-herói para grande parte dos fãs de quadrinhos. Não são apenas traços, desenhos, cores, balões de fala… Por trás de tudo isso, sempre houve tramas complexas, personagens cativantes e todo um novo universo: o Universo Marvel.

Stan Lee – pseudônimo de Stanley Lieber – começou trabalhando, ainda adolescente, na década de 1940, na Timely Comics que, anos mais tarde, viria a se tornar a Marvel Comics, por sugestão do próprio Lee. A Timely foi fundada por Martin Goodman, um editor de revistas de ficção pulp e, a princípio, publicava diversos títulos de faroeste, romance, comédia e terror. Depois de enfrentar uma fase difícil durante os anos 1950, a editora teve seu apogeu durante a década de 1960. A DC Comics ressuscitou o gênero de super-heróis nas histórias em quadrinhos com a Liga da Justiça e, devido ao sucesso, a Marvel decidiu seguir por esse mesmo caminho. Goodman deu a Stan Lee a tarefa de criar um time de super-heróis e, dessa forma, surgiu o Quarteto Fantástico cuja primeira edição foi lançada em 1962. O sucesso imediato fez com que a editora investisse em outros títulos de super-heróis também criados por Lee como X-Men, O Incrível Hulk e, o mais popular, Homem Aranha.

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A própria década de 1960 – a época da explosão criativa da Marvel – e seu contexto sócio-político serviram de inspiração para Stan Lee escrever suas histórias. Suas criações são reflexos de uma época. Há o clima de Guerra Fria nas primeiras revistas do Hulk; a Guerra do Vietnã e as referências ao armamento americano em Homem de Ferro; a segregação racial em X-Men, remetendo aos conflitos de ideais entre Martin Luther King e Malcolm X. E todos os seus personagens tinham uma coisa em comum: tinham de aprender a lidar com seus poderes que eram vistos pelos próprios heróis como sendo, ao mesmo tempo, dádivas e maldições.

Nos anos 2000, grande parte dos heróis mais famosos da editora Marvel foi levada às telonas. Algumas adaptações cinematográficas emocionaram, outras frustraram, contudo, o mais curioso de se observar é que, embora o cenário atual seja bem diferente daquela era sessentista, esses heróis não envelheceram. Afinal, com grandes poderes, ainda vêm grandes responsabilidades.

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A crescente tendência de adaptar roteiros de histórias em quadrinhos de super-heróis para o cinema tornou-se mais acentuada depois dos atentados terroristas de 11 de setembro. A idéia da existência de super-heróis protegendo as grandes cidades como Nova York, funcionava como um símbolo de esperança e otimismo para uma população que se tornara constantemente temerosa e assustada. Algo semelhante ao que representaram os heróis dos quadrinhos durante a Segunda Guerra Mundial. A queda das Torres Gêmeas fez com que o sentido de escapismo das HQs fosse substituído por uma camada maior de realidade, refletindo o contexto sócio-político-cultural em questão. Os primeiros longas de X-Men (2000) e Homem Aranha (2002) foram os principais representantes do renascimento das adaptações da nona para a sétima arte. 

Eu não sei por que deixo um pouco de lado as antigas obsessões. Talvez seja porque, com o passar do tempo, vamos acumulando cada vez mais poderes e responsabilidades e coisas mais sérias e menos divertidas vão se tornando prioridades em nossas vidas. Mas, de jeito nenhum, é porque meu interesse por elas diminui. De certa forma, elas fazem parte de minha personalidade e tem influência sobre quem eu sou, portanto, eu não tenho nenhuma intenção de abandoná-las. Especialmente quando se trata de meus heróis de papel. Eles me apresentaram um novo mundo para além dos quadrinhos e transmitiram mensagens que pretendo carregar para toda a vida. Eu não poderia simplesmente esquecê-los numa prateleira empoeirada de minha estante para servirem de alimento às traças. Eles são poderosos, intrépidos e fortes demais para merecerem um destino lamentável desses.

Andrizy Bento

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