Humans

Narrativas centradas em inteligências artificiais que, estranha-mente, desenvolvem comportamento humano (às vezes mais do que os próprios seres humanos), não se tratam de nenhuma novidade. Já vimos esse filme antes. Aliás, estes filmes. Posso citar pelo menos três exemplos emblemáticos: A.I. – Inteligência Artificial; o chatíssimo O Homem Bicentenário; e Eu, Robô, um bom filme adaptado da obra de Isaac Asimov, autor que parece ter servido de influência na elaboração da premissa de Humans.

Humans 2

Retratando um presente no qual todos possuem um sintético (robôs com fisionomia humana e que têm por objetivo atuar como servos nas casas das pessoas), Humans, exibida pela AMC, acerta ao conciliar a abordagem da temática com dramas e conflitos familiares. Os personagens são todos bem desenvolvidos, mesmo que partam de estereótipos comumente encontrados em narrativas que se concentram em famílias suburbanas. Mas o fato de os dramas serem elaborados de forma a fazer frente à necessidade (ou não-necessidade) de robôs, é um achado. Além da família Hawkins que protagoniza a série ao lado da sintética Anita/Mia, há o plot do policial que se sente preterido pela sua esposa que passa a dar mais atenção ao seu sintético (que cumpre a função de cuidar dela e auxiliá-la a fazer o que ela não consegue sozinha, devido às limitações impostas pelo acidente que sofreu) do que a ele. Trama bem arquitetada, ótima construção de situações e capaz de gerar interessantes debates a respeito de como a tecnologia domina nossas vidas atualmente, bem como de outras questões intrínsecas ao nosso cotidiano.

Há algumas mensagens sobre a exploração do trabalho e abuso sexual que não passam despercebidas. Este último tema é tratado especialmente no quarto episódio quando, em uma festa, um dos colegas de Mattie, a filha adolescente do casal Hawkins, é rejeitado por uma sintética e ele decide desligá-la para que possa se ‘divertir’ com ela, em uma clara alusão a casos de garotas que são drogadas em festas e, então, abusadas. A série também versa a respeito da mão de obra humana que parece se extinguir dia após dia com os avanços da tecnologia. Um sintético poderá fazer isso melhor do que eu no futuro, exclama a primogênita dos Hawkins em um dado momento. Trata-se, enfim, de uma metáfora bem-vinda da adaptação à alta tecnologia, bem como de problemas comuns enfrentados no cotidiano. Ao mesmo tempo nos leva a constantes indagações, dado o realismo com que a história é apresentada: quanto tempo mais até isso tudo se tornar fato ao invés de ser apenas ficção?  Será que o que é mostrado na série está tão distante assim de nossa atual realidade? Os progressos na robótica podem nos agraciar com sintéticos em um futuro próximo?

Humans 4

Outro ponto importante que deve ser mencionado neste texto é a revolta de alguns sintéticos mais avançados que possuem sentimentos e não aceitam serem usados de tal forma, explorados e oprimidos pelos humanos. Da mesma forma que os humanos temem que os sintéticos roubem seu espaço e os dominem futuramente. É um amplo leque de conceitos e discussões atraentes que são bem abordadas e desenvolvidas pelo roteiro, sem nunca se renderem a superficialidade ou a um discurso reducionista e maniqueísta. Ponto para os showrunners.

Dentre as curiosidades que envolvem o programa, está o fato de que este é baseado em uma premiada série sueca chamada Real Humans.

Humans 3

Pode não ter o ineditismo de outras estréias deste ano como Mr. Robot e Sense8. Nem mesmo pode ser considerada um sopro de inovação dentro do gênero, levando-se em conta que é uma premissa já bastante trabalhada em Hollywood, mas é uma trama envolvente, instigante, bem amarrada e que vale fazer maratona. O piloto já é mais do que competente, cumprindo o que propõe, sendo repleto de diálogos bem sacados, com uma eficiente apresentação dos personagens e visão do universo no qual eles estão inseridos. E, como um bom primeiro episódio deve ser, deixa o espectador curioso para saber como vai se desenrolar a história nos episódios seguintes. Duvido que você conseguirá resistir a Humans após ver o piloto. Recomendo!

Andrizy Bento

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