[Catálogo: Clássicos] O Clube dos Cinco

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Don’t you forget about me. Hey, hey, hey, hey!

O melhor filme de John Hughes completa 30 anos em 2015, entretanto, continua refletindo questões tão atuais e pertinentes que os únicos elementos que o identificam como um filme dos anos 80 são os figurinos, modismos e referências pop. Os tempos e costumes mudaram, mas os anseios, receios, desejos e conflitos continuam os mesmos para qualquer geração de adolescentes. Ora, o companheirismo e o crescimento também são questões inerentes a todos nós em qualquer época da vida.

O Clube dos Cinco abre com um quote de David Bowie. “E essas crianças em que você cospe, enquanto elas tentam mudar o mundo delas, são imunes às suas consultas. Elas sabem muito bem o que está se passando”. Não tinha como não ser bom.

A história é bem simples: Cinco jovens, com aparentemente nada em comum – um atleta, uma garota popular, um rebelde, um nerd e uma esquisitona – têm de passar um sábado inteiro na detenção devido à má conduta na escola. Lá, sob a falha supervisão do diretor, eles devem permanecer na biblioteca, não se mover de seus lugares e tem como tarefa escrever um longo texto sobre como veem a si mesmos e o que pensam de suas vidas. Enquanto vão quebrando as barreiras que os separam no cruel mundo da high school, começam a trocar experiências e descobrem que não são tão diferentes como pensavam a princípio.

Aos poucos, os cinco percebem que, ao invés de representaram o contraponto uns dos outros,  tem mais em comum do que imagina-vam. Ainda mais em comum uns com os outros do que cada um tem com as pessoas que compõem seus respectivos círculos de amigos. Todos possuem relações tempestuosas com os pais, sofrem demasi-ada pressão para serem os melhores em suas devidas áreas de especialidade – seja na luta, ou como o cdf da turma ou até mesmo como a rainha da popularidade – e experimentam, todos os dias, carregar o difícil fardo de ser exatamente quem você é.  Os estereóti-pos que encontrávamos em todos os filmes da década de 1980 estão ali, mas vão sendo desconstruídos e desmitificados na medida em que a narrativa se desenrola e percebemos o quanto os cinco são parecidos.

O foco de Hughes é sempre nos personagens e diálogos. Os closes em cada um dos adolescentes – e mesmo os planos que enquadram todos os cinco, juntos – são sintomáticos, dizendo muito sobre cada um. Destaque para o travelling horizontal quando o atleta interpreta-do por Emilio Estevez narra a dura relação com o pai, o que exerce um impacto sem igual no espectador e confere à cena uma força que a torna a mais emblemática e emocionante das sequências que compõem o filme.

Aliás, importantíssimo mencionar este momento sempre que se fala em O Clube dos Cinco. A sequência concentra-se na longa conversa entre os protagonistas, em que eles revelam os motivos de estarem em detenção e as dificuldades que enfrentam em seu dia a dia, seja em casa ou na escola. Mais interessante ainda é saber que não havia nada no roteiro relativo a esta cena, de modo que os atores puderam improvisar suas falas. O que deixa bem claro o talento e a incrível interação entre o elenco. Experimente assistir à cena e resistir às lágrimas. Ou ao sorriso que vai de orelha à orelha, já na sequência seguinte, durante o divertido número de dança que eles executam descontraidamente na biblioteca.

A emblemática sequência da conversa
A emblemática sequência da conversa

Hughes conseguia captar a essência do adolescente sem subestimá-lo. Fosse de forma mais espevitada e engraçada como em Curtindo a Vida Adoidado ou de maneira mais sensível e dramática como neste, O Clube dos Cinco. O cineasta acerta especialmente ao mostrar o quanto os personagens escondem suas próprias inseguranças – bancando o engraçadinho, ou a garota blasé, ou diminuindo e desmerecendo os outros a fim de se sentirem melhores consigo mesmos – mas tudo o que querem, no fundo, é tentar se ajustar, encontrar alguém que possa ouvi-los e entendê-los. E, apesar das claras diferenças, eles encontram esse porto seguro que tanto buscaram secretamente, em um sábado de castigo na escola.

Em um dado momento, uma personagem pergunta ao grupo e a ela mesma se eles vão acabar, no futuro, como os pais deles. Um receio que permeia a vida de todos enquanto jovens. Em cada quadro do longa, o espectador nota o medo do futuro e a irresponsabilidade do presente, o desejo em querer curtir o momento e tentar se encontrar. Eis um retrato honesto e simples da adolescência – emocionante sem ser piegas, engraçado sem partir para a escatologia, este é, com efeito, o filme que melhor retratou o microverso adolescente com suas angústias e aspirações.

Com um roteiro muito bem sacado e apostando na química certeira de seus cinco protagonistas, Hughes mostrou que não é necessário ser pretensioso para construir um clássico. O Clube dos Cinco se destaca pelas ótimas tiradas,  diálogos afiados e personagens que re-presentam a todos nós nesta conturbada fase da vida. É possível que você venha a se identificar mais com um do que com outro – ou com todos eles de certa maneira, em determinados aspectos – mas não importa. O fato é que a identificação surge de imediato, já quando a frase de Bowie invade a tela nos minutos iniciais de filme.

Em meio a tantos longas datados da década de 80, Hughes compôs um clássico atemporal. Divertido, tocante e delicioso.

Andrizy Bento

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