Homem-Formiga

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É surpreendente, mas Peyton Reed realizou a façanha de dirigir o melhor longa-metragem da Marvel Studios até agora. Pode ser que eu esteja exagerando e que, em uma posterior revisão, eu perceba que fui um pouco longe demais com minha recente afirmação. Porém, por enquanto, ainda contagiada pela euforia de ter visto o filme, creio que ele merece este título.

Talvez as minhas baixas expectativas tenham contribuído, admito. O fato é que o trailer passava uma impressão um tanto quanto equivocada da produção. Parecia ser apenas mais um filme que se apoiava na já saturada fórmula Marvel – outra trama de origem, bastante calcada na ação, com um leve toque cômico, mas que parecia se levar a sério demais, com um senso de auto-importância que combina com um Capitão América da vida e até mesmo com o Homem de Ferro, mas que não condizia com um herói da estirpe do Homem-Formiga, cuja existência sempre fez parte do lado B da Marvel. Verdade seja dita e não escondida: o Formiga sempre foi um personagem de segundo escalão da editora.

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Em suma, o trailer transmitia a ideia de mais do mesmo. Todavia, o que já se mostrara funcional nos exemplares solo dos Vingadores, podia conferir uma vibe errada ao Homem- Formiga.

Outra coisa que me incomodava era o fato de Edgar Wright ter abandonado o projeto e deixado a vaga à cadeira de diretor do longa para ser ocupada por Peyton Reed. Um cineasta inexpressivo que havia sido cogitado, no início da década passada, para comandar a aventura cinematográfica do Quarteto Fantástico, numa época em que a Fox se mostrava empenhada em destruir de qualquer maneira uma de suas mais promissoras franquias.

Mas eu não poderia estar mais errada. Bastaram os primeiros minutos de projeção para me provar que minhas preocupações não tinham fundamento. Meu sincero desprezo ao responsável pelo trailer… E a mim mesma pelo meu preconceito contra o Peyton Reed.

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O roteiro de Wright foi mantido, mas Reed não apenas se amparou em suas boas ideias, como soube dar personalidade e estilo ao primeiro longa do Formiga, que se destaca pelo texto afiado, diálogos bem construídos e tiradas cômicas sagazes. O humor e ação são pontuais e surgem com impressionante naturalidade. Ao contrário de seus semelhantes, não há tantas piadinhas fora de hora…

Ainda que se trate da primeira aparição do herói no cinema (ele sequer havia sido citado nas outras produções do estúdio, nem mesmo em uma cena pós-créditos) e já com a responsabilidade de estrear como protagonista, este passa longe de ser um filme de origem típico. Talvez essa seja a principal vantagem de heróis mais lado B na telona: suas adaptações cinematográficas precisam investir no enredo e na ação, não apenas na “origem do mito”, afinal só a figura dos heróis não é o suficiente para cativar a atenção do público. Portanto Homem-Formiga aposta na estratégia de seus colegas (também desconhecidos do grande público e que renderam uma excepcional bilheteria no ano passado), Guardiões da Galáxia, de não perder tanto tempo com introduções e partir para a aventura. A evolução do enredo é notável; com um ritmo acertado, o longa é feliz na dosagem e equilíbrio dos elementos dramáticos.

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Sobretudo, a adaptação para as telas do Formiga explora a mitologia do personagem sem didatismos ou explicações em demasia, porém, deixa clara a necessidade de um herói como este em um mundo em que já existem os Vingadores. Explana de maneira sucinta, mas adequada, as motivações de Hank Pym (o primeiro Homem-Formiga e mentor de Scott Lang); as várias funcionalidades do estiloso uniforme; e a relevância de seus apetrechos. O resultado é uma trama convincente, mas que não se leva a sério demais, jamais negligenciando o senso de diversão e fantasia. Embora se justifique de maneira plausível, não deixa de lado o tom cartunesco que é tão inerente ao personagem.

Depois dos excessos da segunda aventura dos Vingadores, é bom ver um longa de herói que acerta no tom, conduzido com leveza, sem pesar a mão na dramaticidade e que investe em uma narrativa dinâmica.

O desenho de produção é espetacular e a fotografia, até rebuscada. As cenas de voo do herói, as que mostram sua redução de tamanho ou sua supervelocidade, bem como o CGI do exército de formigas, são de encher os olhos. O excelente emprego dos efeitos visuais, combinado aos precisos movimentos de câmera, compõem algumas sequências de extrema elegância. Mais do que crível na criação de um universo em que um homem pode ficar do tamanho de uma formiga e enxergar tudo grandioso à sua volta (dando ênfase aos detalhes que, com o perdão da incoerência, são enormes), o visual é de um requinte estético que a Marvel ainda não havia alcançado em suas produções anteriores.

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Todo o elenco é afinado e eficiente. Soma-se a isso o apurado desenvolvimento de personagens, o que garante espessura e uma função de destaque na trama a todos eles – mesmo os amigos delinquentes de Lang que representam o alívio cômico do filme. Um dos maiores méritos da primeira incursão do Formiga na telona é o fato de apostar no relacionamento entre Hank Pym (Michael Douglas) e Scott Lang (Paul Rudd). Pym, que originalmente vestiu o uniforme, pediu demissão da S.H.I.E.L.D. em 1989, após conflitos relacionados à sua mais importante criação: a tecnologia de encolhimento. Lang é um ex-presidiário que está tentando se regenerar, especialmente por causa de sua filha, e aceita a proposta de Pym de se converter em herói. Ambos apresentam uma desenvoltura e dinâmica fantásticas. Paul Rudd é um charme, tem um timing cômico e uma presença de cena invejáveis; ótimo como Scott Lang, o ator capturou com precisão a essência do Homem-Formiga. Evageline Lilly na pele de Hope Van Dyne, a filha de Pym, não se reduz ao papel ingrato de namorada do herói. E a sugestão de que ela irá vestir o traje da Vespa em uma próxima aventura cinematográfica do personagem é de deixar qualquer Marvete vibrando.

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Para completar, há um apanhado de easter eggs deliciosos – com o perdão do trocadilho – seja a piadinha sobre o Titanic ou as alusões ao próprio universo compartilhado do qual o herói é parte integrante. Menções aos Vingadores são o que não faltam. Logo na cena inicial, temos a participação de Agente Peggy Carter e Howard Stark, os fundadores da agência de espionagem S.H.I.E.L.D. O Falcão dá o ar da graça em uma cena bem bacana, há uma referência sutil ao Homem-Aranha e, claro, a sempre indispensável presença de Stan Lee, o maior figurante de luxo do cinema. Sem falar nas cenas escondidas no meio e depois dos créditos e aquelas que se tratam de tributos ou reproduções fidedignas de passagens memoráveis das HQs. A certeira e bem-humorada trilha sonora é só a cereja no topo do bolo.

O filme não peca pelo excesso, seja no tocante à narrativa ou ao visual. Não vemos na tela nenhuma mostra de pancadaria e ação gratuita – o modelo atual de aventura anabolizada e vazia de conteúdo. Também não é mais um refém de uma fórmula que resulta em algo genérico. Homem-Formiga tem estofo, é inteligente, leve, engraçado, dinâmico e possui um senso de diversão e de propósito excelentes. Vale o ingresso e merece revisões.

Andrizy Bento

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4 opiniões sobre “Homem-Formiga”

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