[Catálogo: Esquecidos] – Dark City: Cidade das Sombras

dark_city_ver1É frustrante que tão pouca gente conheça esse filme. Mais frustrante ainda que poucos saibam que grande parte dos conceitos trabalhados e até mesmo do visual utilizado em Matrix, o fenômeno que surgiu em 1999, podem ter sido sugados deste Dark City que estreou um ano antes. Por mais que toda a torcida do Flamengo negue veementemente. Aliás, o mais revoltante mesmo é o fato de que este nem mesmo se tornou um cult do home video. Tampouco foi redescoberto pela geração torrent atual… De modo que ele figura em uma lista interminável de ótimos filmes esquecidos pelo tempo.

Injusto…

Dark City aborda o conceito de simulacro, hiper-realidade, representação de um mundo real, bem como Matrix e 13º Andar (do qual eu pretendo falar em um texto futuro). Tema que, em minha modesta opinião, ainda merece ser mais bem explorado no cinemão americano. A história acompanha John Murdoch (Rufus Sewell) que, em uma noite qualquer – uma vez que é eternamente noite em Dark City – acorda desmemoriado em um hotel e descobre que é o principal suspeito de uma série de misteriosos assassinatos. Ao mesmo tempo em que é implacavelmente perseguido pelo inspetor de polícia (William Hurt), Murdoch tenta buscar respostas para sua perda de memória e também para o fato de que tudo na cidade soa deveras estranho. Para tanto, conta com a ajuda do Dr. Pehreber (Kiefer Sutherland). Porém, como nada é ruim o bastante que não possa piorar, Murdoch se torna alvo de bizarras entidades com poderes sobrenaturais.

Escrito e dirigido por Alex Proyas (O CorvoEu, Robô), Dark City é uma parábola do controle do governo sobre o ser humano; da extinção do livre arbítrio e da liberdade do homem; da manipulação da sociedade. Murdoch representa a resistência a essa cruel forma de dominação, aquele que questiona seus parâmetros e finalidades.

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Sempre que os ponteiros dos relógios apontam para o 12, é meia-noite na Cidade das Sombras, de forma que a luz do dia jamais é vista e a  cidade está sempre envolta em escuridão (e aqui fica claro o desejo de Proyas de que seu filme seja categorizado como neo-noir). À meia-noite, a cidade inteira para e todos os seus habitantes dormem. Não por livre e espontânea vontade. Eles perdem a consciência conforme planejado previamente pelos seres denominados Estranhos que são os que governam o lugar. Novas memórias são implantadas na mente dos habitantes, substituindo todas as anteriores, de modo que não sobre nenhum resquício de lembranças passadas. A cidade também é inteiramente modificada. Todo o passado e origem do lugar e de seus residentes são pré-fabricados e constantemente reformulados. Nada é verdadeiro ou natural. O que se sabe sobre os Estranhos é que eles vieram de outra galáxia para fazer estudos acerca do comportamento humano a fim de encontrar um sentido para a alma.

Desde os primeiros minutos, o longa já impressiona pela sua simetria rigorosa. Todo o trabalho de fotografia, montagem, a paleta de cores, edição de som e trilha sonora formam um conjunto harmônico do começo ao fim.

Impressiona o domínio da mise-en-scéne, como a cinematografia faz bom uso das locações, especialmente ao explorar espaços mais fechados e restritos, bem como toda a arquitetura da cidade das sombras. Aliás, anos antes de Ariadne, personagem de Ellen Page, criar cidades inteiras com sua imaginação e talento arquitetônico em A Origem, os seres que são referenciados como Estranhos em Dark City já faziam isso. Do cuidado com os planos-detalhes aos plongées e planos gerais, Dark City se destaca pelas excelentes construções de imagens, com belos e inesquecíveis enquadramentos.

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Outro item que vale mencionar é a composição de cores e o jogo de luz e sombras. A opção em se trabalhar de maneira recorrente com matizes mais escuros é acertada, pois corrobora a atmosfera soturna de vital importância para a trama. Aliás, em determinados momentos, Dark City parece evocar o clima de Gotham, a cidade-natal do Batman. A luz amarela que surge de modo pontual, iluminando um pouco a cidade constantemente escura, banha personagens em um tom dourado dando um aspecto até sofisticado para as cenas.

Claro que se tratando de uma obra de 1998, os efeitos especiais, aqui e ali, não deixam de ser precários, mas até que isso cai bem, servindo à narrativa de maneira positiva quando temos em mente que se trata de uma cidade-maquete, manipulável, cujos habitantes são marionetes nas mãos dos Estranhos. E as limitações do design de produção acabam contribuindo para isso, dando um caráter artificial para a cidade, imperativo à proposta do longa.

Outro aspecto interessante é a grandiosidade conferida ao som da cidade: os ruídos das ruas, o barulho do telefone, as batidas dos ponteiros dos relógios, os passos no chão. Isso tudo somado à trilha sonora densa e catártica, atribuem um tom perturbador ao filme.

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Dark City combina a atmosfera de cinema noir com literatura pulp, quadrinhos e filmes sci-fi B que eram exibidos na televisão pelos idos dos anos 80, sendo bem-sucedido ao mesclar elementos narrativos e estéticos destes gêneros e formatos. Do noir, algumas características são bem óbvias como o fato de a trama girar em torno de uma série de misteriosos assassinatos, bem como a gama de personagens rasos e bidimensionais, sem grande profundidade: Há o protagonista misterioso e de caráter questionável, tiras metidos a durões, uma bela mulher que canta em uma boate (Jennifer Connelly)… Dos quadrinhos, o longa empresta a megalomania e o visual caricato dos vilões. Dos sci-fi B, os efeitos especiais duvidosos e cenas de ação pouco plausíveis.

Talvez o que prejudique Dark City seja o clímax nos minutos finais. Pecando pelo exagero, na busca por um final apoteótico, o diretor resvala no bizarro e recorre a uma solução simplista e apressada.

Embora não seja estritamente necessário, há explicações demais acerca das razões de os Estranhos fazerem estes estudos macabros do comportamento humano – sempre mudando personalidades, alterando e acrescentando lembranças às mentes dos habitantes da Cidade das Sombras. Contudo nunca elucidam onde se situa exatamente esse universo, essa realidade paralela. Em dado momento, descobrimos que não há limites, não há uma saída, porém, a descoberta não é satisfatória, pois deixa questionamentos em aberto. Desde que interpretado como uma metáfora, no entanto – do controle e da manipulação do homem – este também não é um fator que chega a incomodar. E o fato de o filme não tencionar construir uma mitologia complexa ou ser parte de uma franquia milionária (nessa época, os estúdios pouco se preocupavam com isso), atenuam um pouco as coisas e tornam tudo mais razoável e até palatável. Se o roteiro fosse um pouco melhor, mais bem planejado e desenvolvido, renderia quase uma obra-prima.

No mais, é um filme bastante envolvente e que vale ser visto, especialmente pelos conceitos trabalhados, tanto no tocante ao estético quanto ao narrativo. Antes de Matrix e A Origem, houve Dark City – Cidade das Sombras.

Andrizy Bento

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