Indicados a Melhor Filme – Oscar 2015

No próximo domingo, conheceremos o grande vencedor do Oscar 2015. Abaixo, algumas palavrinhas a respeito dos indicados.

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Birdman (Alejandro González Iñárritu)
★★★★★

Distante dos filmes-mosaico que o consagraram (estilo que se tornou sua marca registrada), que é o caso de Amores Brutos e Babel, em Birdman, o cineasta mexicano Alejandro González  Iñárritu apostou em algo bem diferente. O trabalho de fotografia combinado à montagem emulam um longo plano-sequência de 119 minutos, como se o filme tivesse sido rodado em tomada única. Este, contudo, não é o único mérito ou surpresa que nos reserva um dos grandes títulos de 2014. A trama acompanha Riggan Thomson, um ator decadente de meia-idade, que conheceu o sucesso na década de 1990 ao estrelar a adaptação cinematográfica de Birdman, um icônico herói de histórias em quadrinhos. Ao recusar o quarto filme da franquia, sua carreira despencou. Agora, ele planeja retornar em grande estilo estrelando uma peça na Broadway. Protagonizado por Michael Keaton, o filme parece refletir a sua própria jornada nas telas. Keaton também interpretou um herói oriundo das HQs no fim dos anos 80 e início da década de 90 (o Batman dos filmes de Tim Burton) e, logo após, fez uma série de filmes inexpressivos. E é em Birdman que o ator faz seu retorno triunfal na ficção e na vida real. Metalinguístico por excelência, o longa satiriza a proliferação de vídeos virais, alfineta as redes sociais e a indústria do entretenimento (principalmente o fato de o mercado estar saturado de filmes baseados em quadrinhos de super-heróis), e faz até mesmo uma crítica mordaz à própria crítica cultural. Amparado por um ótimo elenco (além de Keaton, Emma Stone e Edward Norton se destacam), Birdman é uma coleção de cenas e diálogos memoráveis, primoroso em termos estéticos e narrativos e um dos trabalhos mais inventivos dos últimos tempos. Iñárritu, mestre em criar dramalhões e que nunca pareceu muito dado a sutilezas, realizou uma comédia inteligente e sofisticada. Este é o seu melhor trabalho até aqui.

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Boyhood (Richard Linklater)
★★★★★

Boyhood é o filme mais ambicioso de Richard Linklater até agora. Mas isso não significa que tenha deixado de lado as características que fizeram dele um dos diretores mais autorais, intimistas e sensíveis dos últimos tempos. Pelo contrário, todos estes aspectos se reforçam e amplificam neste longa que demorou 12 anos para ser finalizado. Linklater compôs uma belíssima ode à vida, sem recorrer a muitos artifícios. Trata-se essencialmente de uma narrativa terna e realista, em que a complexidade da vida e das relações humanas parece se desmitificar assim que o espectador passa a acompanhar o crescimento e envelhecimento ‘real’ dos personagens. Tudo parece simples de ser explicado, como se a vida fosse apenas uma série de momentos que nos ensinam muito, mas com os quais não precisamos nos preocupar excessivamente. O tempo passa muito rápido, afinal. Excelente diretor de atores, Linklater extrai grandes atuações de seu elenco. Ellar Coltrane que interpreta o protagonista Mason (dos seis aos 18 anos de idade) é competente. Mas são seus coadjuvantes que roubam a cena. Ethan Hawke, na pele do pai irresponsável e imaturo, entrega uma atuação segura e bastante espontânea. Patricia Arquette (a provável vencedora do Oscar de atriz coadjuvante), que vive a mãe do protagonista, cumpre o desafio de representar uma mulher comum que tenta superar da melhor forma que pode as frustrações do cotidiano e os dramas familiares. Para completar, a filha do diretor, Lorelei Linklater que interpreta Samantha, a irmã de Mason, é simplesmente adorável. O roteiro não se preocupa com o início ou o fim de ciclos e, sim, com o que fica pelo meio; valorizando as experiências que os personagens vivem e as pessoas que eles encontram na metade do caminho, não se incomodando em mostrar processos de adaptação. O próprio filme não termina com um fim, mas com o meio de algo, de um diálogo. O que torna claro o objetivo do diretor em se concentrar no agora, não no passado, nem no futuro.

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O Grande Hotel Budapeste (Wes Anderson)
★★★

Poucos trabalhos de Wes Anderson conseguiram conquistar minha simpatia. De forma que eu gosto de Tenenbaums, mas filmes como Viagem a Darjeeling e Moonrise Kingdom não me convencem. Há uma infinidade de cineastas que adotam fórmulas e estilos (visuais e narrativos) e os repetem à exaustão em seus filmes, de maneira sucessiva e constante. Mas a forma como Anderson faz isso é geralmente cansativa, incômoda e até pretensiosa. Seja pelo humor previsível ou pela estética espalhafatosa, passando pelos personagens afetados. Todos esses elementos estão presentes em O Grande Hotel Budapeste, mas, desta vez, este conjunto funciona em harmonia e não soa artificial e forçado como em seus trabalhos anteriores. Tendo como foco as aventuras e desventuras de Monsieur Gustave (o lendário concierge do Grande Hotel Budapeste) e seu ajudante Zero, o filme (situado no período entre as duas grandes guerras) se beneficia do carisma de um volumoso elenco encabeçado por um ótimo Ralph Fiennes, perfeito no papel de Gustave. Grande parte dos personagens tem poucas cenas e surgem no quadro com a mesma rapidez com que desaparecem. Mesmo assim, suas participações são um achado. A trama deliciosamente tresloucada é construída em inúmeros matizes (ora mais vivos, ora sombrios). Pela primeira vez aprecio quase inteiramente a estética de um filme de Anderson. A direção de arte acerta, bem como a fotografia (especialmente nos planos gerais, nos plongées e ao explorar a arquitetura do hotel). A composição simétrica, a paleta cromática utilizada e as histórias que se valem de referências, citações e alusões não representam uma novidade no cinema do diretor, mas desta vez ele soube dosar bem todos esses elementos com precisão cirúrgica, não se excedendo em nenhum momento e se revelando um autor e artesão com domínio de narrativa e mise-en-scène impressionante. Não deixa de ser mais do mesmo do que o cineasta sempre fez, mas em Hotel Budapeste, pelo menos, ele encontrou o tom ideal.

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O Jogo da Imitação (Morten Tyldum)
★★

O Jogo da Imitação segue a mesma fórmula de outros burocráticos vencedores do Oscar: Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei. O longa de Morten Tyldum é uma cinebiografia tão convencional, morna e desinteressante quanto os outros dois citados. O que é lamentável quando se conhece previamente a história de Alan Turing, um homem admirável, que durante a Segunda Guerra Mundial trabalhou para o serviço britânico, desenvolvendo uma máquina que tinha a finalidade de quebrar o código Enigma (utilizado pelos nazistas para enviar mensagens secretas acerca de estratégias de batalha). De acordo com estudiosos, a invenção do matemático permitiu encurtar a guerra em dois anos e, posteriormente, ele foi considerado o pioneiro da ciência da computação. Além disso, Turing era incapaz de socializar e foi perseguido por conta de sua homossexualidade, conduta considerada criminosa na época. Nada disso é bem explorado. Optando pela superficialidade, chavões narrativos, excesso de sentimentalismo, fotografia pouco inspirada, montagem falha e direção extremamente burocrática, O Jogo da Imitação traz uma desconcertante impressão de mais do mesmo. A estrutura é típica de um Oscar bait: Drama de época biográfico, contém uma frase de efeito que é repetida à exaustão no decorrer da narrativa (“Aqueles de quem menos esperamos fazem as coisas que nunca imaginamos”) e cuja trilha sonora (a cargo do onipresente Alexandre Desplat) dá um caráter solene – neste caso, dispensável – para tudo. Nem as atuações surpreendem. Benedict Cumberbatch está carismático e eficiente como sempre, porém não escapa do caricatural em algumas passagens. Keira Knightley não compromete, mas está longe de ser brilhante. O Jogo da Imitação é redondinho, competente e totalmente despido de ousadias e inventividade. Fica a esperança de que ele não siga os passos de seus semelhantes, Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, e venha a figurar dentre os vencedores da categoria principal do Oscar.

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Selma (Ava DuVernay)
★★★★

A princípio pode parecer que Selma seja apenas outro drama de superação feito exclusivamente para ganhar o Oscar. Essa impressão (equívoco causado por conta do padrão Oscar que tem vigorado nas últimas décadas) é dissipada logo nos primeiros minutos de projeção. Sim, é um drama de superação, mas é muito mais do que isso. Percorrendo o caminho inverso de Clint Eastwood que, no questionável (pra dizer o mínimo) American Sniper, abraça a lenda e esconde o homem (justificando mesmo as suas atitudes mais reprováveis), Ava DuVernay evita a imagem de mito, herói, símbolo e nos mostra Martin Luther King como um ser humano que lutou pelo que acreditava. Selma é um retrato preciso dessa luta. Mesmo com inúmeras passagens violentas e revoltantes, a diretora conduz seu filme com sensibilidade e sutileza notáveis, jamais recorrendo ao panfletário. Os discursos mais inflamados de King e os momentos mais trágicos do longa nos proporcionam emoções genuínas, não a comoção forçada de tantos dramas de superação das temporadas de prêmios. David Oyelowo capta e transmite a fé e a perseverança de King, é certeiro no balanço entre a energia e o comedimento do retratado, provando seu imenso talento interpretativo. Selma é um filme fabuloso, da reconstituição da época à trilha sonora, passando pelas atuações de um afinado elenco (realmente lamentável que Oyelowo e Carmen Ejogo que vive Coretta Scott King, esposa de Martin, não tenham sido reconhecidos e indicados às categorias de atuação no Oscar). Além disso, trata-se de um filme necessário. Necessário ainda nos dias de hoje. Selma representa a luta de todos nós.

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Sniper Americano (Clint Eastwood)
★★

Este é mais um atestado de que Clint Eastwood perdeu a mão. Depois de dirigir belos filmes como Sobre Meninos e Lobos e Gran Torino e mesmo segurar bem um que tinha tudo para cair facilmente no melodrama, Menina de Ouro, o cineasta tem feito filmes cada vez menos interessantes. Sniper Americano é baseado na vida real de um atirador de elite da marinha americana, Chris Kyle. Calcula-se que, em dez anos, ele matou mais de 150 pessoas, tendo sido condecorado diversas vezes por conta de seu desempenho. Tecnicamente o longa tem seus méritos. A cena da tempestade de areia, por exemplo, consegue surpreender. E há belos enquadramentos e sequências inegavelmente bem realizadas, tanto aquelas que ilustram a crueldade da guerra, quanto as que expressam a confusão do personagem, seus conflitos internos e a relação com a família. Mas são algumas das poucas (únicas) proezas do longa. Desde o princípio, fica clara a intenção de Eastwood: fazer um retrato intimista do atirador, se concentrando no homem por trás da “lenda” (que é como se referem a ele em diversas passagens). Porém, enquanto conta sua história, o diretor se perde, abraça a aura de mito em torno de seu retratado e justifica até mesmo suas atitudes mais condenáveis, como se sua conduta fosse irrepreensível diante de tudo o que ele viu e enfrentou na guerra. Se a proposta da narrativa era desenhá-lo na tela da maneira mais humana possível, esta é mal-sucedida. Eastwood vende Kyle como um grande herói, um símbolo, adota um tom reverente em demasia e compõe uma narrativa morna e arrastada. Para completar a atuação de Bradley Cooper (inexplicavelmente indicado ao Oscar), não ajuda. Muito pelo contrário. Cooper está mais esforçado do que de costume, menos canastrão, mas ainda assim não convence em diversos momentos. Sniper Americano é um desserviço para a carreira de Clint Eastwood. Pena que nem ele notou.

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A Teoria de Tudo (James Marsh)
★★

Na mesma linha de O Jogo da Imitação, dos filmes que seguem à risca o padrão celebrado pela Academia, A Teoria de Tudo é um drama biográfico de superação supostamente edificante e  que transforma a vida do físico teórico Stephen Hawking em uma propaganda de margarina. Ou melhor: naqueles comerciais de banco de fim de ano que mostram famílias felizes e de alto poder aquisitivo. Por ser baseado no livro My Life With Stephen, escrito por Jane Wilde, a primeira esposa do cientista, A Teoria de Tudo se concentra especificamente no relacionamento entre Hawking e Jane, seus altos e baixos, os instantes de felicidade plena (até demais pra ser verdade) e os (poucos) momentos de dificuldade que atravessaram durante o casamento. A decisão de focar neste aspecto, ao invés de narrar os feitos e realizações de Stephen, era tornar a narrativa mais pessoal, mais próxima do espectador, humanizar o gênio, mostrar que apesar de sua inteligência fora do normal e das limitações impostas por sua deficiência física, trata-se de um homem comum, com os mesmos dramas, anseios e alegrias que todos nós. Louvável até. Mas o que poderia ser uma alternativa interessante, converte-se em um romance açucarado de sessão da tarde, cujo visual parece inspirado por uma estética instagram, dada a overdose de filtros. Além do mau gosto plástico, algumas cenas que ilustram a convivência em família são realmente embaraçosas. Fica difícil acreditar que o longa  é baseado em fatos, quando James Marsh nos oferece um viés sentimental, repleto de floreios, quase um conto de fadas moderno. Enquanto durou, o casamento de Jane e Stephen parece ter sido sempre maravilhoso. Por isso, quando eles se separam, fica um sabor estranho de anticlímax, pois parece que vai contra a ideia de todo romance água-com-açúcar que supera os obstáculos e adversidades que tanto nos acostumamos a ver no cinemão americano. A diferença aqui é que esta era para ser a história de um homem real. Ao tomar tantas decisões equivocadas para desenhar a trama na tela, Marsh relativiza a importância de Stephen Hawking. Boa presença de Eddie Redmayne, contudo a Academia deve premiá-lo mais por conta do tipo de atuação, não necessariamente pela performance em si (se formos analisar por esse lado, Keaton merece mais). E nada realmente justifica a indicação de Felicity Jones à categoria de melhor atriz. Sim, ela é promissora, mas este papel não tem nada de espetacular. Felicity está correta como Jane, no máximo. A sequência que encerra o filme, recorrendo ao manjado flashback, é tão desnecessária, mesmo que a intenção seja fazer uma referência às próprias teorias de Hawking. Só serve para coroar definitivamente A Teoria de Tudo como o clichê-master da temporada. Uma pena. Está aí um homem que merecia uma cinebiografia mais digna.

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Whiplash (Damien Chazelle)
★★★★★

Meu favorito dentre os oito indicados, Whiplash é um ensaio sobre a obsessão, a busca da perfeição do título brasileiro. O longa narra a história do jovem baterista de jazz, Andrew (Miles Teller), um garoto antissocial e cheio de aspirações. Seu desempenho com o instrumento chama a atenção de um tirano professor, o maestro Fletcher (J.K. Simmons). O garoto tem, então, a primeira grande chance de sua vida: fazer parte da orquestra principal do conservatório Shaffer. A relação entre esses dois personagens é explorada em um grau de tensão máximo, e é nos embates entre eles que reside o brilhantismo do longa.  O desafio lançado por Fletcher não só é prontamente aceito por Andrew, como se converte em um desejo compulsivo de ser o melhor e impressionar. A paixão, fúria e insanidade com que ele toca a bateria e a impetuosidade de seu mestre são os mecanismos que movem a história. Fletcher submete Andrew a uma tortura psicológica e física – em um dos momentos mais emblemáticos do longa, os dedos do baterista chegam a sangrar. De uma maneira literal, sangue, suor e lágrimas fazem parte do processo. Chazelle é preciso na condução da narrativa. Ao optar por ambientes fechados, traz mais densidade à narrativa e auxilia na construção de uma atmosfera sufocante que funciona perfeitamente. A ótima direção aliada às atuações excelentes de Simmons (apontado como favorito ao Oscar de ator coadjuvante) e Teller, e a uma trilha sonora fantástica e pontual fazem deste um dos melhores filmes desta acirrada temporada de prêmios. A sequência final provoca um atordoamento e arrebatamento no espectador que se prolongam até depois do fim da projeção. Em suma, uma grande obra.

Andrizy Bento

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