[Especial] X-Men – Parte 1

Faltando menos de uma semana para a estréia de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, nova aventura cinematográfica dos mutantes da Marvel Comics, decidi começar este especial dividido, provavelmente, em cinco partes. Retomarei o Especial Teledramaturgia assim que findar meu compromisso com essa série de posts sobre os meus personagens favoritos dos quadrinhos, desenhos animados e cinema.

Eu sou uma das sortudas que já teve a oportunidade de conferir o novo longa dos mutantes e preciso dizer que sim, vale a pena. Provavelmente é o melhor e mais completo filme dos X-Men. Há tantos bons e marcantes momentos, mas, com certeza, o que ficará na cabeça dos fãs após o final da projeção, é a cena protagonizada por Mercúrio e a sequência final, que presta um tributo aos primeiros filmes e aos personagens mais populares desde os quadrinhos. Em breve, falarei sobre o filme em um post deste especial. Por enquanto, a dica é esta: o filme é realmente muito bom e há uma cena importante depois dos créditos.

Falar de X-Men e não tocar no contexto histórico em que os personagens surgiram – época dos conflitos raciais existentes na década de 1960 nos Estados Unidos – é ignorar não apenas suas origens e fundamentação, mas também a razão de X-Men permanecer atual e relevante, além do real motivo pelo qual tantos jovens leitores de quadrinhos ao redor do mundo se identificam mais com os mutantes do que com qualquer outro herói.

Ao longo das décadas, migrando de uma mídia para outra e deixando sua marca em todos os níveis da cultura pop, X-Men segue desfrutando do prestígio de público e crítica; de antigos e novos leitores de quadrinhos; daqueles que nunca passaram perto de uma HQ e dos fãs de cinema de entretenimento inteligente. Fazendo fortuna com as revistas lançadas e alcançando números expressivos em bilheteria com seus longas-metragens para o cinema, bem como com jogos de videogame e outros produtos licenciados, o sucesso almejado e atingido não é à toa. Existem inúmeros fatores que contribuíram para que os mutantes criados por Stan Lee na década de 60 se tornassem tão queridos como são hoje, além de merecidamente bem-sucedidos.

Os X-Men nunca foram como os outros super-heróis. Ao invés de amados pela população que juraram proteger, são odiados e temidos. Isto devido à uma mutação genética que lhes confere poderes extraordinários e os torna “diferentes” do restante das pessoas. Vistos como ameaças e perigosos para a sociedade, lutam desde o começo pelo sonho de conviver em harmonia com os humanos. Este é o ideal de seu mentor, o Professor Charles Xavier, que os reuniu e os ensinou a utilizar suas habilidades especiais apenas para o bem da humanidade. Tento herdado uma mansão de seu pai, o renomado cientista Brian Xavier, Charles fez dela o seu Instituto Xavier para Jovens Superdotados. Uma fachada para uma base de operações e treinamento mutante, na qual Charles orienta seus alunos a dominarem seus poderes. Do outro lado do tabuleiro, está Erik Lehnsherr, o Magneto que acredita que a raça humana deve ser exterminada em prol da evolução de sua raça e da supremacia mutante. Xavier é uma alusão ao pacifista Martin Luther King, enquanto Magneto representa o radical Malcon X.

X-Men compreende uma inteligente metáfora do preconceito racial. Com o passar do tempo, em 60 anos de quadrinhos, as tramas foram ganhando cada vez mais profundidade e abordando temas complexos e espinhosos como a homossexualidade, antissemitismo, conflitos étnicos e religiosos, ódio às ditas minorias, entre outros. Sempre abordando a temática da  intolerância e não-aceitação, tentando passar aos leitores de HQs uma mensagem simples: que é possível conviver com nossas diferenças e que devemos aprender a compartilhar o mundo.

Porém, é um fato histórico: compartilhar o mundo nunca foi o atributo mais nobre da humanidade.

Histórias em Quadrinhos

Os X-Men foram criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963 e tiveram seu primeiro título publicado em 10 de setembro daquele ano. A primeira equipe era formada por Ciclope (Scott Summers), Garota Marvel (Jean Grey), Fera (Hank McCoy), Anjo (Warren Worthington III) e Homem de Gelo (Robert “Bobby” Drake). Os primeiros alunos de Xavier eram todos adolescentes norte-americanos que possuíam incríveis poderes, graças ao gene X. Apesar do estilo, com cores fortes, uniformes típicos de super-heróis, tramas que envolviam muita ação e batalhas do bem contra o mal, a HQ tratava de um tema sério e pertinente, o preconceito. A mensagem de X-Men era muito clara.  Os mutantes eram vistos como ameaças e não como heróis.

A década de 60 foi prolífica para a Marvel Comics. Várias criações de Lee e Kirby despontaram e fizeram um enorme sucesso. No entanto, os X-Men não desfrutaram da mesma fama imediata que outros colegas de editora. Apenas em 1975, quando  o roteirista Len Wein e o desenhista Dave Cockrum assumiram o título, que X-Men se converteu em um grande sucesso de vendas. Ambos introduziram novos personagens, vindos de diferentes países – o alemão Noturno, o russo Colossus, o irlandês Banshee, a egípcia Tempestade, o japonês Solaris e o canadense Wolverine. Dessa forma, estabeleceu o conceito de equipe multiétnica, afinal, se os mutantes eram uma raça, deveria haver portadores do gene X por todo o globo. Chris Claremont e John Byrne logo substituíram a antiga dupla Wein e Cockrum e criaram algumas das sagas mais importantes e memoráveis não só da história dos X-Men, como dos quadrinhos em geral. É o caso de A Saga da Fênix Negra e Dias de um Futuro Esquecido. De lá pra cá, diversos roteiristas e desenhistas já assumiram o título, com histórias incríveis como Deus Ama, o Homem Mata, A Era do Apocalipse, dentre outras. A equipe também já passou por diversas reformulações, mas os mutantes continuam lutando por aquilo que acreditam desde a década de 60: a convivência pacífica entre humanos e mutantes, a aceitação das diferenças, o fim de qualquer espécie de preconceito.

Desenhos Animados

Embora já tenham protagonizado inúmeras séries animadas – X-Men Animated Series, de 1992, lançada pela Fox Network; X-Men Evolution, da Warner Brothers, de 2000; Wolverine and The X-Men, da Marvel Studios, lançada em 2008; e Marvel Anime: X-Men, produzida em 2011 pela Marvel Entertainment em colaboração com o estúdio de animação japonês Madhouse – os desenhos mais representativos de X-Men são mesmo  a série clássica de 1992, exibida por aqui um ano depois na extinta TV Colosso da Rede Globo; e X-Men Evolution, que passava nas manhãs do SBT em programas como Bom Dia & Cia e Sábado Animado. X-Men Animated Series apresentou os mutantes para muitos que não costumavam ler histórias em quadrinhos. Era um bom desenho, mas não necessariamente uma boa animação. Os roteiros dos episódios, quando baseados nas aventuras das HQs, surpreendiam pela fidelidade à fonte e solidez das tramas. Porém, quando os roteiristas apostavam em histórias originais e independentes dos quadrinhos, vacilavam com tramas bizarras que pecavam pelo absurdo. Dentre as tramas adaptadas diretamente das HQs, estão A Saga da Fênix e Dias de Um Futuro Esquecido. As premissas básicas e conceitos estavam lá, e há realmente poucas modificações em relação às originais. A série também acertava em transportar o carisma dos personagens dos quadrinhos para a televisão, conquistando a simpatia e admiração do público. Em termos de visual, a série pecava bastante, com uma animação um tanto rudimentar e, por diversas vezes, equivocada. Mas levando em consideração a época em que foi criada, estava de bom tamanho. E um de seus méritos foi realmente chamar a atenção do público que não conhecia X-Men, atraindo novos fãs.

Outra série dos mutantes responsável por conquistar uma legião de admiradores, foi X-Men Evolution. Na verdade, conquistou uma nova geração de fãs, uma audiência mais jovem do que aquela que acompanhava a série clássica (aliás, que eram provavelmente muito pequenos ou sequer eram nascidos quando ela foi exibida). X-Men Evolution lançava luz sobre personagens que ainda não haviam sido contemplados na animação anterior, apresentando versões mais juvenis e colegiais de alguns dos principais mutantes. Apesar das licenças poéticas e liberdades até questionáveis, era bem-sucedida na introdução e desenvolvimento de personagens e os roteiros quase nunca deixavam a desejar – sempre fluidos, bem trabalhados, com um ótimo ritmo, e partindo de premissas interessantes. A partir do momento em que o mundo se dá conta da existência dos mutantes na terceira temporada, e o foco se torna o mais poderoso de todos, Apocalipse, a série fica ainda melhor. Alguns episódios são marcantes, como aquele em que Noturno descobre que é filho de Mística; ou quando os roteiristas tiveram a brilhante ideia de reunir a primeira equipe dos quadrinhos, de 1963, fazendo com que eles trabalhassem juntos; sem contar o final dividido em duas partes, com Os Cavaleiros do Apocalipse. É desenho animado extremamente feliz e eficaz, além de superior à série clássica em diversos aspectos, especialmente no que diz respeito ao visual. E bem melhor também que Wolverine and The X-Men, que não era de todo ruim, mas tinha um ritmo atropelado e enredos superficiais. Ainda não tive a oportunidade de ver Marvel Anime: X-Men além do piloto, mas já vi algumas críticas negativas ao roteiro, embora o visual surpreenda.

Cinema

E, enfim, os X-Men chegaram ao grande ecrã em 2000, para fazer história também na sétima arte. Excluindo os filmes-solo do Wolverine do combo, e falando apenas dos longas dos X-Men em si, temos uma série competente e sólida, que só tropeçou mesmo com X-Men: O Confronto Final de 2006, terceiro filme da franquia que foi feito em um prazo apertado e com um novo diretor (Brett Ratner substituiu Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros longas, devido ao compromisso deste último com o filme Superman Returns). Uma pena, pois a correria nas gravações, as constantes mudanças na equipe e todos os outros problemas de bastidores, resultaram em um filme que tinha tudo para ser grandioso, mas que ficou apenas na promessa. Se levarmos em conta todos os conflitos que rolaram durante a produção, O Confronto Final nem pode ser considerado tão ruim. Mas também não é bom. É um filme passável, decepcionante para os fãs, mas que cumpria bem seu papel como entretenimento de fim de semana para o público em geral. O problema era que, até ali, os filmes dos X-Men tinham representado muito mais do que isso. Não se tratava apenas de cinema-pipoca. Era entretenimento inteligente, que havia alcançado um refinamento estético e um brilhantismo narrativo no segundo capítulo da trilogia. Mas X-Men 2 e X-Men: Primeira Classe são tão bons que merecem textos à parte, portanto falarei deles nas próximas postagens.

X-Men – O Filme, dirigido por Bryan Singer, estreou em 2000 e fez um sucesso retumbante, sendo considerado o responsável pelo renascimento das adaptações de quadrinhos para a tela grande. Graças a ele, vieram outras boas produções como o Homem-Aranha de Sam Raimi. X-Men é um bom filme, uma digna introdução do universo mutante e de seus personagens. A primeira incursão dos heróis mutantes nos cinemas conta com uma direção segura, mas sem grandes ousadias. O roteiro escrito pelo próprio Singer, ao lado de David Hayter e Tom deSanto, segue a risca a premissa básica dos quadrinhos: Num futuro próximo, seres nascem com estranhos poderes. Por esse motivo são temidos e discriminados pela sociedade. O universo habitado por humanos normais e superiores, reproduzido e recriado nas telas por Bryan Singer é transmitido para a platéia de forma convincente, tornando-o crível. Nas mãos de um sujeito menos competente, isso tudo poderia converter-se facilmente em uma trama artificial e megalômana, repleta de excessos visuais e narrativos. Fora que os quadrinhos de X-Men contam com um número incomensurável de personagens. Alguém que não possuísse o mesmo comedimento de Singer, poderia sair despejando todos os personagens na tela de modo superficial e causando uma tremenda confusão, fazendo consequentemente com que os espectadores se perdessem no meio de uma quantidade absurda de super-poderosos e cenas de ação e efeitos especiais.

Nada melhor do que a pessoa certa…

Aliás, a pessoa certa que voltou a ocupar a cadeira de diretor de um filme dos X-Men com o novo Dias de um Futuro Esquecido. Singer compreende a essência da criação de Stan Lee, os simbolismos e a mensagem que a obra transmite ao público. E isso é evidente em cada quadro do novo longa. Por isso, é muito bom tê-lo novamente a frente de um filme dos mutantes da Marvel.

Em cada mídia, X-Men deixou a sua marca e momentos memoráveis que irão figurar para sempre no imaginário dos fãs. E que venha dia 22 de maio e mais uma coleção de cenas inesquecíveis dos nossos admiráveis heróis mutantes.

Andrizy Bento

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6 comentários em “[Especial] X-Men – Parte 1”

    1. Então… As cenas da Vampira foram mesmo deletadas. Ela aparece apenas no final, numa cena bem rápida, sem falar. Apenas interagindo com o Bobby. Uma pena. Porém, o nome dela aparece com certo destaque nos créditos finais… algo que esqueceram de corrigir.

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