Jogos Vorazes: Em Chamas

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Uma boa adaptação de uma obra literária para o cinema não consiste em manter fidelidade a cada palavra existente no livro, não se trata de um “livro filmado”. Consiste em ser fiel à sua essência, em manter as características fundamentais que compõem a trama, em pensar a história do livro em um formato cinematográfico, atendendo às exigências e especificidades do meio. Uma boa adaptação trata-se, na verdade, de uma boa releitura.

Os fãs de Jogos Vorazes podem ficar tranquilos. O segundo longa baseado na trilogia distópica escrita por Suzanne Collins trata-se de bom cinema, mas também de boa adaptação e, sem dúvida, estamos diante de um dos melhores blockbusters da temporada.

O presidente de Panem (Donald Sutherland) não está nem um pouco contente com o comportamento da vencedora dos Jogos Vorazes, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). Seu último ato nos Jogos, que garantiu a sua vitória ao lado do parceiro, Peeta Mellark (Josh Hutcherson), pode ter sido encarado pelos alienados da Capital como um gesto genuíno de amor. Mas a população oprimida dos Distritos compreendeu que Katniss estava, na verdade, desafiando a Capital. E se justo alguém do esfomeado e miserável Distrito 12 foi capaz de zombar do sistema, o que impede que outros o façam? Ideias de levante e revolução andam sendo discutidas nos Distritos e a “garota em chamas” se tornou um símbolo de esperança. Diante dos fatos, o presidente Snow faz uma visita nada amistosa à garota para que cheguem a um acordo, mas se trata na realidade de ameaças e chantagem. Ela deve convencer a todos que está apaixonada por Peeta, manter a encenação e continuar fazendo de sua vida privada um entretenimento para dar cabo das esperanças do povo e de seus recentes ideais revolucionários. Assim, ninguém que ela ama irá se machucar. Pensando em sua família e amigos, Katniss aceita os termos do presidente.

Infeliz, ou felizmente, ela não é bem-sucedida em sua missão. Dessa forma, o presidente faz com que ela e Peeta voltem à arena para mais um combate sangrento televisionado e chamado de Jogos Vorazes. Desta vez, eles correm ainda mais riscos, pois devem competir contra veteranos dos Jogos – antigos vencedores de edições anteriores, para celebrar os 75 anos do cruel reality show.

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Uma boa releitura ou adaptação deve ser autoral e Francis Lawrence sabe disso. Assim, o cineasta transformou o universo concebido por Collins e retratado primeiramente por Gary Ross no cinema – no filme de 2012 – em algo um pouco seu, respeitando às convenções dos livros e do primeiro longa, bem como a mitologia da série, mas não deixando de enriquecê-la e aperfeiçoá-la, trazendo uma visão singular e assustadoramente plausível do cenário pós-apocalíptico e cruel em que se desenvolve a ação de Jogos Vorazes. E isto é, no mínimo, admirável em tempos de blockbusters cada vez mais burocráticos.

A crueldade é transformada em espetáculo, um circo macabro transmitido para toda uma nação – uma parte alienada, que aceita ser enganada e iludida pelos poderosos; outra parte revoltada, com ideias de organização de levantes, que custam sua liberdade, seus recursos e meios de subsistência e até mesmo suas vidas. Aliás, a televisão tem um papel interessante como instrumento de alienação e forma de mascarar os fatos na trama. Não muito diferente da realidade, apenas mais assustador.

A premissa é atraente e a execução, brilhante. Nenhuma cena parece fora de contexto e nenhum personagem soa deslocado. Cada um tem a sua função e a narrativa segue numa fluidez espantosa cujo ritmo jamais vacila, prendendo a atenção do espectador do início ao fim e, claro, deixando-o sem fôlego em diversas sequências.

A princípio, por meio de diálogos inteligentes e afiados, os personagens vão dando pistas e, logo mais, detalhes reveladores da situação em que se encontra Panem, o continente formado por 12 Distritos e uma Capital, com base em uma hierarquia tirânica.  A segunda metade do filme, no entanto, parte para a ação desenfreada, com raros momentos de leveza, e apesar de se valer novamente dos Jogos Vorazes, não soa como uma mera repetição do primeiro filme, isto por conta da eficiente condução narrativa que não deixa os Jogos se tornarem o elemento central desta vez, e também por conta dos carismáticos personagens que compõem o novo elenco de tributos.

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Jennifer Lawrence é daquelas atrizes que dá gosto ver em cena, fazendo jus ao Oscar que, mesmo sendo tão jovem, já possui em seu currículo. Lawrence presenteia o espectador com um atuação firme e segura, além de uma entrega rara que poucas atrizes de sua época oferecem. Se a heroína dos livros já era suficientemente interessante, às vezes até ambígua, Jennifer a torna uma personagem ainda mais complexa, transmitindo muito de seus sentimentos contraditórios através do olhar – a insegurança, o medo, a coragem, a ousadia. Com inteligência, a atriz sabe nos deixar em dúvida acerca de seus sentimentos por Peeta – o que é, de fato, real e o que se trata de farsa para manter as pessoas que ama, vivas?

Além de tudo, é uma protagonista generosa também, já que em alguns instantes rouba a cena, fazendo questão de tomar a tela toda para si, mas deixa tempo e espaço mais do que suficiente para seus companheiros de cena brilharem. Aliás, elenco fantástico! De dar inveja a muitos blockbusters de estúdios mais gabaritados por aí. É fascinante ver Philip Seymour Hoffman (como Plutarch Heavensbee, o idealizador-chefe dos Jogos) e Donald Sutherland, dividirem a tela. O primeiro é um acréscimo excepcional e mais do que bem-vindo à série. E se eu reclamei de Sutherland na resenha do primeiro filme por sua atuação muitas vezes passiva (talvez porque não tivesse consciência do material que Ross tinha em mãos na época, afinal primeiros capítulos de franquias são sempre um tiro no escuro), desta vez sua presença de cena é impressionante. Articulado e calculista, ele mantém um tom de voz ao mesmo tempo frio, calmo e autoritário, compondo um vilão memorável.

E seria injusto não falar de Josh Hutcherson. Não só mais um garoto adorável e com aparência ingênua, o ator evoluiu muito desde o primeiro filme. Seu personagem chega a ser tão interessante quanto Katniss. Parece frágil, mas é esperto o suficiente para saber como sobreviver. Soa dependente, mas é seguro de si. Transparente, mas estrategista. Além de ser encantador.

Como fã, é delicioso ver um de seus livros prediletos ser tão bem adaptado para o cinema. E, além disso, ver alguns de seus personagens favoritos tão bem retratados. Não obstante as ótimas interpretações e caracterizações dos já citados, outras figuras atraentes como Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), Finnick Odair (Sam Claflin) e Johanna Mason (Jena Malone) merecem nossa atenção. O estilista Cinna, infelizmente, não tem muito tempo de tela, talvez exatamente por conta das limitações na interpretação do músico Lenny Kravitz, mas todos do elenco fazem um bom trabalho, de forma que os espectadores se importam com os personagens, compreendem suas motivações e torcem por um destino menos sofrível e mais digno para todos eles.

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Há um equilíbrio preciso entre cenas de ação, tensão, suspense, romance e até mesmo humor. Mesmo mantendo um ritmo dinâmico e uma alta carga de adrenalina, é capaz de arrancar algumas boas risadas do público. A forma como os Jogos são orquestrados e o clímax são sensacionais. Em Chamas é um filme intenso, com uma trama intrincada e até verossímil. Cada quadro do longa faz questão de nos transportar até Panem. Dessa forma, é impossível ficar indiferente diante da jornada de Katniss.

Dentre outras qualidades, pode-se afirmar seguramente que a fotografia, direção de arte e ambientação estão muito melhores do que no filme anterior. O orçamento polpudo se justifica em cada cena, cada detalhe. A trilha sonora é outro item que agora produz impacto. Tudo acertado e harmonioso, ainda que estejamos vendo na tela uma representação de caos.

Não posso deixar de salientar o quão maravilhoso é saber que uma franquia destinada ao público adolescente se preocupa com questões políticas e sociais tão pertinentes, além de representar uma crítica incisiva à alienação das massas, à centralização do poder e o sistema que rege a nação. A série Jogos Vorazes possui um caráter reflexivo que, atualmente, poucas obras do gênero têm.

Diferentemente do final correto e redondo do primeiro longa, o desfecho deste deixa o espectador salivando pelo próximo episódio. Infelizmente, por questões mercadológicas, o último volume da saga será dividido em dois filmes. Espero que isso funcione e, de forma alguma, afunde uma franquia tão boa.

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Se o primeiro filme mostrava o potencial da série, este atinge definitivamente o seu potencial. Dá vontade de ver de novo. Várias e várias vezes. Curtir novamente as cenas emocionantes.

Transgressor em diversos aspectos (para um filme dedicado ao público jovem) e superior em todos os sentidos ao filme original de 2012, Jogos Vorazes: Em Chamas tem todos os elementos que uma boa distopia deve oferecer aos espectadores. O enredo de cunho social; a energia revolucionária; um símbolo de otimismo representado por uma heroína carismática, rebelde e muito humana; a trajetória de personagens instigantes que lutam pela sobrevivência; e uma visão ora pessimista, ora esperançosa do mundo e da sociedade. Um grande livro e um grande filme.

Resenha do livro Jogos Vorazes

Resenha do filme Jogos Vorazes

Resenha do livro Em Chamas

Andrizy Bento

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3 opiniões sobre “Jogos Vorazes: Em Chamas”

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