Em Chamas – Suzanne Collins

Eu costumo pegar essas séries de livros YA Lit com atraso. Um exemplo clássico é Harry Potter, como já citei aqui em posts passados. Portanto, enquanto A Esperança (Mockingjay no original), o melancólico capítulo final da saga Jogos Vorazes, já estava nas livrarias há algum tempo, sendo um êxito de vendas e figurando há algumas semanas na lista dos best-sellers da revista Veja, eu acabava de concluir a leitura de Em Chamas, segundo volume da série.

Ontem eu decidi pegar o livro novamente, dar uma folheada e acabei relendo alguns dos meus trechos favoritos, como o diálogo entre o presidente Snow e Katniss logo no início do livro; as cenas que envolvem Finnick, um dos meus personagens favoritos; a passagem que conta como o bêbado e cínico Haymitch conseguiu vencer os Jogos Vorazes; e a última jogada de mestre de Katniss na arena. Sendo assim, decidi escrever esta resenha.

Eu já falei a respeito de Jogos Vorazes por aqui e, no geral, os meus comentários foram bastante positivos. E desta vez não é diferente. Em Chamas mantém o ritmo dinâmico e a narrativa densa e impactante que consagraram o primeiro volume da série. Só que agora a tensão é ainda maior.

Devido à intensa carga dramática e a alta dosagem de violência contida na história, o público-alvo pode precisar de momentos de leveza para respirar, então pode conciliar a leitura com um suave Hush Hush da vida, ou com uma aventura como Instrumentos Mortais. Isto se você for como eu, que costuma ler dois livros ao mesmo tempo.

Mas para quem não fraquejar diante da densa trama pontuada por passagens agressivas e tortuosas de Suzanne Collins, conseguirá engolir o livro em poucas horas a despeito de suas 416 páginas.

Katniss Everdeen (a garota quente) e Peeta Mellark (o garoto do pão) conseguiram realizar o impensável: saíram vitoriosos dos Jogos Vorazes. Claro que não foi uma tarefa fácil, afinal eles tiveram de sujar as mãos com o sangue dos demais competidores, convencer a Capital com a história de que estavam apaixonados (o que se tornou uma estratégia certeira para que ambos permanecessem vivos, mas também transformou suas vidas em um entretenimento que se estendeu além dos Jogos), e o pior de tudo, desafiaram a Capital que não está nem um pouco satisfeita ou feliz com a vitória dos tributos do Distrito 12, o mais paupérrimo de todos os distritos que compõem Panem.

Logo no início da trama, o presidente Snow faz uma visita à Katniss que agora mora na Aldeia dos Vitoriosos junto de sua família, dispondo de luxo e conforto que jamais conheceu antes dos Jogos. A visita não é aleatória. Ele vem para lhe dar um alerta, afinal seu desempenho nos Jogos abriu os olhos da nação e ideias de levante e revolução andam fervilhando nas cabeças dos habitantes de diversos distritos. Ele pede que ela seja mais convincente em sua farsa dos “Amantes Desafortunados”, o título atribuído ao trágico romance entre Peeta e Katniss na arena. Dessa forma, fazer com que todos acreditem que seu último ato nos Jogos Vorazes foi impulsionado pela paixão que sentia por seu parceiro e não que ela estava tentando desafiar a Capital. Katniss se vê obrigada a manter a encenação e continuar dentro da personagem se quiser o bem-estar de sua família, das pessoas que ama e de toda a nação.

O preço de sua vitória nos Jogos Vorazes gera inúmeras consequências e conflitos, tanto de ordem política e social (se alguém do Distrito 12 é capaz de confrontar a Capital, o que impedirá que habitantes de outros distritos façam o mesmo?), como pessoal, uma vez que toda a história do romance acaba por prejudicar seu relacionamento com o melhor amigo Gale, colocando em jogo seu afeto e amizade por ele, em favor de uma estratégia de sobrevivência dentro e fora da arena.

E como nada está tão ruim que não possa piorar…

A protagonista nem teve tempo (talvez jamais tivesse, na verdade) de se recuperar do trauma dos Jogos e se vê tendo de voltar a eles para o Massacre Quaternário. A cada vinte e cinco anos, é realizada uma edição especial dos Jogos Vorazes. E, não por coincidência, a surpresa da edição especial desta vez é que vencedores de edições anteriores, um homem e uma mulher de cada distrito, devem voltar para a arena. Como Katniss é a única garota do Distrito 12 a ter vencido, sobra para ela. Peeta, por sua vez, se voluntaria no lugar de Haymitch Abernathy que foi o nome sorteado. Obviamente, o Massacre Quaternário é ainda mais violento e cruel ao transformar a luta pela sobrevivência dos tributos vencedores em um entretenimento atroz. A intenção é matar Katniss a todo custo pelo que ela representa para toda a sociedade. A garota quente é, afinal, a fagulha capaz de provocar um incêndio. Seus gestos e atitudes tiveram um efeito catalisador, representaram o estímulo necessário para o início de uma revolução. Agora, a desafortunada protagonista consegue perceber realmente do que os poderosos são capazes. Porém, o que Snow não contava, é que houvesse tantas pessoas ao lado de Katniss, dispostos a dar suas próprias vidas por ela.

O texto de Collins é ágil e inteligente, e a crítica à sociedade é ainda mais aguda e acentuada do que no primeiro volume. A adição de personagens carismáticos como Finnick Odair e Johanna Mason, além de um melhor desenvolvimento de Haymitch (com direito a um brilhante background do personagem) enriquecem a trama. A autora optou por uma linguagem simples que vai direto ao ponto, sem delongas ou floreios, trazendo dinamismo e crueza à narrativa. O drama, a violência, a crítica social – elementos fundamentais da obra – são bem trabalhados, apresentando um preciso equilíbrio entre momentos de tensão e leveza.

O mote continua sendo a luta pela sobrevivência em uma sociedade tirana. E, para isso, recorre a mecanismos interessantes para a construção de uma distopia plausível. Os reality shows, a guerra, o sensacionalismo, a opressão e manipulação das massas, o fato de ser vigiado o tempo todo pelos olhos de um regime totalitário, perdendo sua liberdade e autonomia como indivíduo, além de referências explícitas à mitologia romana, são alguns dos temas que, costurados ao elemento central, compõem um universo crível e uma trama envolvente, cuja força reside principalmente nos personagens.

Suzanne Collins acerta a mão, conduzindo de maneira segura e impressionante sua história e deixando todos os leitores ansiosos pela parte final da trilogia. E é isso que uma boa autora de sagas literárias faz.

A adaptação para as telas de Em Chamas estreia em 15 de novembro de 2013 nos cinemas brasileiros.

Andrizy Bento

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3 opiniões sobre “Em Chamas – Suzanne Collins”

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