A Literatura Atual E O Efeito Dominó

Alguns acontecimentos recentes no meio literário afora, somado a coisas que eu já vi por aí, me fizeram escrever esse texto como uma forma de desabafo, como leitora e blogueira.

É um fato de conhecimento geral de qualquer pessoa que acompanha o meio literário que, o aumento de aspirantes a escritores, e editoras surgindo no mercado brasileiro a todo a vapor vem crescendo. Até aí, tudo bem. Estamos numa era digital, em que a internet virou uma ferramenta poderosa de divulgação de trabalhos desses autores. Eu acompanho o lançamento desses novos escritores já faz quase dois anos através do meu blog e durante esse tempo eu observei algumas coisas nada legais.

Lembra-se de uns caras chamados José de Alencar, Machado de Assis, e de uma mulher chamada Cecília Meireles, e outra escritora chamada Rachel de Queiroz? Pessoas assim, nada famosas… Então, essas pessoas não tinham o acesso à informação como temos hoje, e até mesmo muitos dos escritores de suas respectivas épocas não tiveram acesso a uma boa formação e estudo. Pois é. Vejam o exemplo de Machado de Assis que eu gosto de citar – para mim ele é um referencial de escritor que sempre buscou dar o melhor de si em suas obras – ele nunca frequentou uma universidade e mal estudou, nasceu pobre e era gago! E olha aonde ele chegou…

Cecília Meireles já teve uma formação acadêmica em contraponto com seu colega. Mesmo assim, com uma dedicação de quase dez anos para escrever Romanceiro da Inconfidência, ela fez, e fez bem feito. Não teve pressa, deixando as águas rolarem…

Eu poderia citar muitos outros grandes autores por aí que se dedicaram com afinco ao ofício de escritor fazendo o serviço bem feito. Porém não é esse o foco.

Tudo bem, eles fazem parte da turma dos escritores de gente chata como eu e muitos por aí.

Entenderam onde eu quero chegar? Não?

Dedicação. Estudo. Paciência. Crítica. Leitura.

Essas coisinhas citadas é o que falta para a maioria dos aspirantes a escritores na atual cena da literatura brasileira. E digo com propriedade devido a tantas obras de má qualidade pipocando por aí com que eu já me deparei.

O aspirante precisa colocar na cabeça que, se ele quer levar o ofício da escrita a sério, tem que fazer bem feito. Ele precisa compreender que ele não vai virar um Stephen King da vida logo de cara. Que ele não vai colher louros e rosas caso venha publicar seu original. Lapidar, pedir segundas opiniões, reescrever quantas vezes for necessário, tudo isso é uma dedicação que tem de ser uma lei para essa galera. Esquecer o orgulho, e abaixar o nariz para as opiniões, sejam elas positivas ou negativas a respeito da sua obra. Não sair correndo atrás de editora feito cachorrinhos mendigando publicação. Ridículo.

Não, o pior é quando você vê que a na própria sinopse há erros absurdos de português. Isso me deixa completamente revoltada. Se na sinopse já tem erros primários de gramática – não falo de erros comuns, mas sim grotescos – não quero nem imaginar o resto do livro, porque é bem capaz de eu chorar de raiva. Aí entra a questão do estudo. Não é porque Machado de Assis não fez faculdade que você encontra erros horrorosos, muito pelo contrário, o cara sabia usar a língua portuguesa muito melhor que bastante aspirante de escritor por aí que se diz estudante de Letras. Hum, sei…

Um mal da nossa era atual é que tudo é muito rápido. Ou seja, estamos sempre com pressa e na correria todos os dias, refletindo assim nos nossos projetos pessoais. Eu publiquei um conto de minha autoria numa antologia há alguns meses. Gostei da experiência, mesmo com os seus altos e baixos. Talvez eu tenha sido apressada em publicar…? Talvez, porque, agora mesmo, eu não me sinto nada preparada para dar a cara à tapa novamente com um original. Agora não, no futuro provavelmente… Se quiserem tomar como um exemplo, fiquem à vontade, porque falta paciência para os escritores novatos.

Já vi o caso de um livro de uma autora iniciante publicado por uma editora famosinha, escrito em menos de um mês, combinando todo o tipo de bizarrice que vocês, pobres leitores, possam imaginar… E quando veio as resenhas de leitores críticos: Ai meu ego! Essa autora não é a única, mas talvez a mais famosa por ser egocêntrica e se achar uma Meg Cabot versão Tupiniquim.

Aí vem a questão das boas críticas. O que essa citada autora não sabe aceitar, e muitas pessoas no geral, sejam elas em qualquer situação da vida. É hipocrisia da minha parte dizer que é fácil lidar com críticas negativas. Mentira. Não é e nunca vai ser. Mas se forem críticas construtivas, com certeza no futuro ela vai ser de grande ajuda para melhorar e acertar da próxima vez. Assim, os jovens autores precisam e necessitam fazer o exercício de baixar o ego e aceitar as críticas construtivas.

Mas nem todos os leitores são sinceros em suas resenhas quando leem algum autor nacional, complicando esse processo de aprendizado do jovem escritor. O livro da referida autora recebeu muitos elogios com direito a cinco estrelas no Skoob, entre outras puxações de saco – o fato dela ser uma blogueira famosa, amiga de outras blogueiras, também contou na hora das opiniões em massa – o que é deprimente e prejudicial para ela.

Continuando a usar o exemplo dessa mesma autora, percebe-se em suas listas de leitura que ela lê de tudo e mais um pouco dos gêneros YA e suas ramificações. Eu adoro YA, gosto de ler, mas não só isso. E, sim, a nossa querida autora lê somente esse gênero. Bom… Cada um lê o que gosta, certo? Porém eu sou da opinião que, se você quer ser escritor, é preciso você ler um pouco de tudo, desde Ficção Científica à Poesia, e claro buscar sempre ler livros de qualidade, não só livros para diversão. A leitura para um escritor em início de carreira tem que ser inspiradora, que dê ideias, sendo também uma forma de aprendizado. Escritores famosos, desde os clássicos aos mais atuais, têm muito a ensinar, basta somente a boa vontade do jovem autor para aprender.

Tudo o que mencionei até agora são coisas óbvias, mas que não estão sendo utilizadas nos dias de hoje, acarretando dessa forma a explosão de gente querendo ser escritor e de editoras picaretas no Brasil. E aí vêm os famosos blogs literários, que em sua maioria, possuem resenhas vazias, mal escritas e que dizem nada com nada, no final das contas. Claro, não são todos os autores, blogs e editoras. No entanto, uma coisa puxa a outra, tornando o processo um verdadeiro efeito dominó.

Isso me preocupa e me assusta diante do destino da nossa literatura atual. Mas eu acredito que tempos melhores virão. Apesar de já termos bons autores na nossa geração, a fé é termos mais no futuro.

Juliana Lira

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Uma consideração sobre “A Literatura Atual E O Efeito Dominó”

  1. Sei lá, tem tantas coisas que realmente importam e que eu sei que não vou conseguir ler antes de morrer, que eu simplesmente ignoro esse cenário ao qual você se refere. Não vejo motivo para que eu gaste meu tempo lendo o livro do fulaninho ali enquanto tem um Kurt Vonnegut me esperando há anos na minha estante – os amigos do fulaninho que leiam seus livros.

    Parabéns pelo blog, o trabalho de vocês é bacana.

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